03 Abril 2009

FIM





Tudo tem um fim e hoje é dia de fechar o TESTEMUNHOS.

Agradeço todas as manifestações de amizade recebidas durante estes anos.

Não esquecerei os Amigos/as e sempre que possível visitá-los-ei.

Abraços

11 Fevereiro 2009

30 ANOS DEPOIS DO 25 DE ABRIL DE 1974

Trinta anos depois do 25 de Abril: Quatro versões de uma revolução

O dossier de A PÁGINA tem neste número um formato um pouco diferente do habitual. Para assinalarmos o trigésimo aniversário da revolução que marcou a história do Portugal contemporâneo, fomos ouvir quatro gerações de portugueses - a que participou directamente nos acontecimentos, a que nasceu por altura da revolução e as gerações de 80 e de 90 - procurando saber, trinta anos depois, para que serviu afinal o 25 de Abril? E o País: mudou para melhor ou para pior? Ficam os testemunhos.
Há trinta anos, numa madrugada sem chuva, Portugal acordava para um dia que iria mudar a sua face. Estava-se a 25 e o mês era Abril. Na rádio ouvia-se "E Depois do Adeus", de Paulo de Carvalho. Algumas horas mais tarde, vivia-se nas ruas a confusão própria de um período revolucionário em curso. Pois é: já passaram três décadas desde a revolução dos cravos, mas a memória daquele que é um dos mais significativos acontecimentos históricos do país continua bem vivo no espírito de muitos portugueses.
Ainda vivo em Carlos Maia, por exemplo, na altura um jovem de 22 anos militante do Partido Comunista dos Trabalhadores Portugueses/ Movimento Revolucionário do Proletariado Português, crente nos ideais revolucionários e na soberania popular como único meio de dar um novo rumo ao país. ?Era um tempo de poesia ? a célebre frase inscrita no quadro de Vieira da Silva 'A poesia está na rua' reflecte muito bem o espírito que se viveu nesse período ? e de esperança no futuro?, diz com alguma melancolia à mistura.
Trinta anos depois, admite que o optimismo deu lugar à decepção. ?Vivemos numa democracia, que era a principal aspiração do povo português, mas ficou-se, na minha opinião, aquém daquilo que se ambicionava: uma verdadeira democracia popular, onde os cidadãos participassem activamente na vida política e decidissem por si o que considerassem mais conveniente para o país. Hoje em dia não é isso que acontece, e a elevada abstenção nas eleições é disso um reflexo?.
Uma visão diferente da de António Narciso, 54 anos, gerente comercial, que confessa não ter entrado em grandes entusiasmos político-partidários e encarado com alguma reserva a situação que se gerou no pós 25 de Abril.
Recorda que foi uma altura muito confusa, com as diferentes facções partidárias a confrontarem-se de forma violenta, e chegou mesmo a temer por uma guerra civil. ?Ainda bem que houve bom senso, mas correu-se um sério risco de confronto armado generalizado e de uma ditadura de esquerda chegar ao poder?.
Desde então, considera que o país evoluiu para uma situação estável e acredita mesmo que Portugal deu uma lição de civismo ao mundo, mostrando como se pode transitar pacificamente de uma ditadura para uma democracia. ?Em muitos outros países uma revolução como a nossa teria terminado num banho de sangue, mas os portugueses são um povo pacífico e mostraram como, mesmo com divisões, se consegue chegar a um consenso para atingir o bem comum".
Apesar de ser favorável a um regime democrático, considera que na ditadura de Salazar não se vivia a "bandalheira" que hoje se verifica no país, dando como exemplos a subida da criminalidade e a corrupção generalizada, inclusivamente entre aqueles que, na sua opinião, deveriam estar acima de qualquer suspeita: a classe política.
A avaliar pelas respostas dadas ao longo do inquérito que A PÁGINA conduziu junto da geração que viveu o 25 de Abril, a decepção face aos objectivos preconizados pela revolução contrasta com a opinião de que o país soube consolidar a democracia conquistada em 1974.
Em geral, a avaliação mais negativa incide sobre a actuação da classe política. É ela que recolhe um maior número de críticas e sobre quem recai a responsabilidade de o país não ter conseguido aproveitar duas das maiores oportunidades na sua História ? a revolução e a entrada na União Europeia - para se pôr a par dos restantes países europeus.
?Após o período conturbado que se seguiu ao 25 de Abril houve uma esperança genuína de que o país pudesse recuperar o atraso que nos caracterizava. E, em parte, conseguimo-lo. Mas muito ficou por fazer e, nesse sentido, os actuais políticos, que foram os mesmos que na altura também contribuíram para a revolução, não souberam estar à altura das aspirações dos portugueses?, diz Fátima Costa, 48 anos, professora do ensino secundário, que na altura ?pouco percebia de política? mas sabia que algo de decisivo estava a marcar o país.
Apesar de nos anos seguintes à revolução ter participado activamente na vida política e de ter inclusivamente integrado listas eleitorais de um partido que prefere não designar, Fátima Costa admite ter deixado de acreditar no sistema político e hoje em dia já não exerce sequer o seu direito de voto.
?Sentia que estava a contribuir para a manutenção de um sistema viciado?, refere num tom de lamento. Uma decepção que se estende também à geração do 25 de Abril que, na sua opinião, se ?aburguesou? e esqueceu alguns dos valores que lhe eram caros na altura da revolução. ?Se calhar, a juventude de hoje deveria fazer outra revolução?.

Geração de 74:
"Portugal foi um exemplo de transição para a democracia"
Cláudia Pereira nasceu em pleno ano da revolução. E conta uma história curiosa: ?a minha mãe sentiu uma alegria muito grande quando se deu o 25 de Abril e diz que eu sou bonita porque essa felicidade foi transposta para mim quando ainda estava na barriga dela. Parece maluquice, mas ela acredita nisso??, diz com um largo sorriso, parecendo ela própria acreditar, de certa maneira, na história da mãe.
As memórias mais antigas desta jovem farmacêutica recuam ao início dos anos oitenta e estão associadas principalmente à indumentária da altura: roupa justa, cabelos compridos, calças boca-de-sino e óculos com lentes enormes, "daqueles que fazem lembrar os olhos de uma mosca", explica com as mãos postas em torno dos olhos.
"É curioso verificar como muitas dessas coisas se voltam hoje a usar?, diz, recordando também alguns murais - que entretanto desapareceram das paredes da cidade - com inscrições de propaganda política, ?com muitas foices e martelos à mistura?.
?Portugal está muito diferente do que era, mas não sei se evoluiu no melhor caminho: hoje temos estradas que nos ligam a todo o lado e montras cheias de coisas bonitas, mas nem toda a gente tem acesso a elas?.
Opinião contrária tem Pedro Queiroz, técnico de seguros, nascido em 1975, para quem o país foi um exemplo do que deveriam ser todas as transições de sistemas ditatoriais para a democracia. ?Se não tivéssemos sido um exemplo nunca teríamos entrado para a União Europeia praticamente dez anos depois da revolução?. E não tem dúvidas em afirmar que, se o 25 de Abril não tivesse ocorrido em 1974, "mais cedo ou mais tarde os portugueses iriam acordar para a necessidade de transição e de modernização do país".
Embora admita que nem tudo tenha corrido como provavelmente teriam esperado os revolucionários da altura, garante que o país soube aproveitar a oportunidade de integrar um grande bloco económico e assume-se hoje como um "país moderno".
Mais cauteloso na sua análise, Vítor Costa, 34 anos, técnico oficial de contas, considera "enganosa" a liberdade de expressão trazida pelo 25 de Abril porque, justifica, a comunicação social, apesar de não ser censurada como há trinta anos, "fala apenas sobre aquilo que vende e não sobre aquilo que é necessário". Além disso, acrescenta, o poder económico caiu novamente nas mãos dos poderosos e isso é um facto que, indirectamente, "limita a liberdade dos cidadãos".
Partindo destes argumentos, Costa conclui que o 25 de Abril, afinal, "não valeu tanto a pena como isso", porque além de as pessoas não terem adquirido noção de "onde começa e acaba a liberdade", de que vale uma revolução quando nem a própria Constituição da República dela saída é respeitada? Isto, justifica, porque nela se fala de liberdade de expressão e de responsabilidades do Estado, mas este tem vindo a privatizar as suas responsabilidades em áreas tão fundamentais como a saúde, a educação ou a habitação, que na altura da revolução eram consideradas pilares fundamentais da democracia emergente.

Geração de 80:
"Políticos fazem parte do problema, não da solução"
Apesar de terem nascido alguns anos após a revolução, os jovens da geração de oitenta parecem ter um razoável conhecimento das causas que estiveram na origem do 25 de Abril e do próprio desenrolar dos acontecimentos.
Mais ainda se estivermos perante duas estudantes de sociologia como Márcia Oliveira, 22 anos, aluna da faculdade de letras da Universidade de Lisboa, e Daniela Santos, 23 anos, aluna do mesmo curso da Universidade do Porto, a quem questionamos qual seria a maior conquista de Abril. Na opinião das duas amigas a resposta é consensual: a liberdade de expressão e de associação política. Mas se em relação à primeira o pressuposto permanece válido, já em relação à segunda instalam-se certas dúvidas sobre a sua utilidade.
?Agora pode-se votar no partido da nossa preferência, mas essa liberdade não implica necessariamente que estejamos a votar nas propostas que nos parecem mais adequadas e nem sempre temos a garantia que as promessas eleitorais são cumpridas?.
Isto, explica Márcia Oliveira, porque os partidos políticos estão condicionados por factores que eles próprios não controlam, principalmente aqueles que se prendem com o contexto internacional e que determinam indirectamente a sua linha de actuação?. Assim sendo, conclui, a liberdade de voto não passa de um ?exercício de legitimação do poder?.
Além disso, sublinha, ?os políticos que agora governam o país, que são os mesmos que fizeram o 25 de Abril, têm demonstrado, infelizmente, que fazem mais parte do problema do que parte da solução para os problemas que afectam Portugal?.
Daniela Santos não só subscreve a opinião da amiga como sublinha o papel negativo da classe política portuguesa na condução da vida do país nos últimos trinta anos. Na sua perspectiva, Portugal perdeu uma excelente oportunidade de modernizar o seu aparelho produtivo e de investir na promoção da educação e das áreas sociais com as verbas provenientes da União Europeia, que, na sua perspectiva, foram ?mal distribuídas?.
Assim, diz, ?o país tem hoje muitas auto-estradas mas isso não resolveu as graves carências que o país sente em termos de qualificação da população activa e da prestação de serviços básicos. E isso, parecendo que não, também limita a liberdade das pessoas?.
Apesar de não ter a mesma opinião de Márcia e Daniela sobre a forma como a revolução influiu no desenvolvimento do país, Filipe Carvalho, 24 anos, concorda com o facto de a revolução de Abril ter sido um marco histórico que permitiu transformar o país.
Assim, para este finalista do curso de engenharia mecânica da Universidade do Porto, o 25 de Abril é a data mais significativa do século XX português na medida em que é ela que inaugura a era do ?Portugal moderno e democrático?. Ao contrário das duas estudantes de sociologia, considera que ?o progresso do país é indiscutível? e que, hoje em dia, os portugueses têm acesso a bens e serviços até então vedados à maioria, nomeadamente na área da saúde e da educação.
?A democracia é um sistema justo e funciona. Portugal é prova disso. Claro que não é perfeito e pode mesmo criar algumas distorções, mas quem não está de acordo com ele que invente um melhor??.

Geração de 90:
"25 de Abril foi uma espécie de guerra que se passou há muitos anos"
A geração nascida nos anos noventa pouco sabe do 25 de Abril. A maior parte dos miúdos entrevistados pela PÁGINA ouviu falar de uma revolução com ?flores?, que até houve tanques na rua, mas poucos conhecem as motivações que estiveram por trás dela.
Reunidos à porta da Escola Básica de 2º e 3º ciclo Gomes Teixeira, no Porto, um grupo de três amigos fala sobre a façanha do Futebol Clube do Porto que, na noite anterior, tinha eliminado o Manchester United da Liga dos Campeões em futebol. Entusiasmados com a conversa, pouco atenção dão ao jornalista quando este os questiona sobre a revolução dos cravos. ?Já vi imagens na televisão, mas não me lembro ao certo o que aconteceu?, diz Pedro Dias, 11 anos, enquanto olha distraidamente para a bola de futebol que vai rodando sobre as mãos.
?Havia um presidente que se chamava Salazar e depois vieram os tropas com tanques para a rua, mas não sei o que se passou depois disso?, explica por sua vez o Pedro Oliveira, da mesma idade, olhando para o amigo ao lado ? Daniel Costa, um ano mais velho do que os dois - como quem pede ajuda para terminar a história. ?Eu também já vi imagens na televisão e acho que foi uma espécie de guerra que se passou há muitos anos. Para quê não sei, mas tem a ver com política??.
Quase ao lado, duas miúdas ouvem com curiosidade a conversa e decidem intervir. ?O 25 de Abril serviu para trazer liberdade às pessoas, porque antes não se podia falar sobre tudo o que quiséssemos?, explica Catarina Figueira, com 12 anos, a quem os pais já lhe tinham falado sobre o assunto. A amiga, um ano mais nova, não sabia disto, mas, à semelhança dos colegas rapazes, já tinha visto imagens na televisão de soldados nas ruas e pessoas que lhes estendiam flores vermelhas. ?Em que ano foi? Não me lembro??.
Joana Amaral é aluna do 2º ciclo na mesma escola e é a que melhor parece conhecer os factos que estiveram na origem da madrugada que mudou o curso da história recente portuguesa. A formação política dos pais - a Joana diz que ?eles são de esquerda? ? ajudou-a, na sua opinião, a saber mais do que a maioria dos colegas. Então, afinal de que se tratou? ?O 25 de Abril foi uma revolução que derrubou a ditadura e trouxe a liberdade às pessoas?, sintetiza Joana.
Na escola, porém, ela diz que ?pouco se aprende? sobre a data. No ano passado a professora de História falou-lhes sobre o assunto mas não ficou a saber muito mais em relação àquilo que os pais já lhe tinham explicado. ?Ainda por cima foi uma ?seca?, porque não havia imagens, a professora só falou e a maioria dos colegas estava distraído?.
É notório que quando se fala sobre a revolução de Abril os miúdos a associam a política e parecem, por isso, não lhe atribuir grande importância. Isso mesmo transpareceu da conversa que a A PÁGINA manteve com outros dois miúdos da geração de 90, que encontrámos a estudar na biblioteca Almeida Garrett.
?O 25 de Abril foi um golpe de Estado do exército para derrubar a ditadura?, afirma João Meireles, aluno do 7º ano, para quem este facto histórico está relacionado com a política e ele confessar que essa matéria não lhe interessa.
?A política é uma ?seca? e eu acho que nunca vou votar?, diz com uma certa indiferença, argumento aproveitado pelo jornalista para o questionar sobre se essa própria liberdade de escolha está ou não directamente relacionada com os próprios princípios da revolução. ?Nunca tinha pensado nisso, mas talvez esteja... Antes não se podia votar livremente, agora pode?.
O Pedro Tavares, colega de turma do João, garante, à semelhança do amigo, que também ele nunca irá votar. É que, na sua opinião, "os políticos prometem e nunca cumprem", pelo que não vale a pena o esforço. Mas e se todos deixassem de votar, como era? "Não sei, mas pelo menos na televisão deixava de se falar tanto na política e podiam passar mais filmes...".

Depoimentos recolhidos por Ricardo Jorge Costa



Ricardo Jorge Costa; Jornal a Página da Educação" , ano 13, nº 133, Abril 2004, p. 35.

05 Fevereiro 2009

UM TESTEMUNHO


Naquela madrugada não realizei o que íamos fazer, não dei conta do acto em si...O cap. Salgueiro Maia convidou-nos a ir para Lisboa fazer um golpe de Estado, era 1,00 hora da madrugada de 25 de Abril de 1974, tínhamos apagado a luz da camarata há coisa de 15 minutos.

Era uma linguagem a que não estávamos habituados e pensámos tratar-se de acção psicológica, de mais uma instrução nocturna...contudo achámos que desta vez o nosso comandante de esquadrão estava a ir longe demais.

Verdadeiramente só começámos a acreditar, no momento em que fizémos fila para receber munições e granadas reais....Alto...qualquer coisa se passa! Todos responderam ao convite, ninguém quis ficar no quartel; com o cap. Salgueiro Maia iríamos até ao fim do mundo, e, medo era coisa que não tínhamos, ou não tivéssemos 20 e poucos anos.

Houve momentos de tensão, não posso negar, mas todos juntos e com a ajuda do povo, conseguimos levar a melhor. Não esqueço a coragem daquele homem, em cima dos carros de combate, de megafone na mão. Definitivamente o regime tinha chegado ao fim, e, por Deus, de uma forma pacífica.

Assistimos à rendição dos membros do Governo que se tinham refugiado no Quartel do Carmo, entre eles o Presidente do Conselho, Prof. Marcelo Caetano. O acolhimento da população foi memorável e o regresso a Santarém, quase impossível, com tantas pessoas à nossa passagem.

No fim de tudo, dei-me conta que tinha ajudado acabar com o regime que tanto mal fizera ao meu Avô...ironia do destino!



Francisco de Sousa Mendes

(Neto de Aristides de Sousa Mendes)

Copiei este testemunho do Blog URBAN JUNGLE

20 Janeiro 2009

CRIAÇÃO DE CARTAZ






Concurso de design - Criação de cartaz

Comemoração do 35º aniversário do

25 de Abril de 1974



No âmbito da cooperação estabelecida com o Ministério da


Educação, a Associação 25 de Abril (A25A) lançou, em parceria


com a DGIDC, um concurso de design para criação de um cartaz


original comemorativo do 35º aniversário do 25 de Abril de 1974,


de âmbito nacional e dirigido a alunos do ensino secundário. Regulamento NormasAno lectivo de 2008/2009


Uma iniciativa:

Associação 25 de Abril (A25A),

DGIDC - Direcção Geral da Inovação e Desenvolvimento Curricular

13 Maio 2008

CAMPO DO TARRAFAL





A Colónia Penal do Tarrafal, situada no lugar de Chão Bom do concelho do Tarrafal, na ilha de Santiago (Cabo Verde), foi criada pelo Governo português do Estado Novo ao abrigo do Decreto-Lei n.º 26 539, de 23 de Abril de 1936.

Em 18 de Outubro de 1936 partiram de Lisboa os primeiros 152 detidos, entre os quais se contavam participantes do 18 de Janeiro de 1934 na Marinha Grande (37) e marinheiros que se tinham amotinado a bordo de um navio de guerra no Tejo.

O Campo do Tarrafal, ou Campo de Concentração do Tarrafal, como ficou conhecido, começou a funcionar em 29 de Outubro de 1936, com a chegada dos primeiros prisioneiros.



O Estado Novo, sob a capa da reorganização dos estabelecimentos prisionais, ao criar este campo pretende atingir dois objectivos ligados entre si: afastar da metrópole presos problemáticos, e, através das deliberadas más condições de encarcerramento, enviar um sinal de que a repressão dos contestatários será levada ao extremo.

Esta visão está claramente definida nos primeiros parágrafos do Decreto-Lei n.º 26 539, ao afirmar que serve para receber os presos políticos e sociais, sobre quem recai o dever de cumprir o desterro, aqueles que internados em outros estabelecimentos prisionais se mostram refractários à disciplina e ainda os elementos perniciosos para outros reclusos. Este diploma abrange também os condenados a pena maior por crimes praticados com fins políticos, os presos preventivos, e, por fim, os presos por crime de rebelião.



Mortos no Tarrafal

Foram 37 os antifascistas portugueses assassinados no Tarrafal; os seus corpos só depois do 25 de Abril puderam voltar à pátria:

Francisco José Pereira: Marinheiro, 28 anos (Lisboa, 1909 - Tarrafal 20 de Setembro de 1937)
Pedro de Matos Filipe: Descarregador, 32 anos (Almada, 19 de Junho de 1905 - Tarrafal, 20 de Setembro de 1937)
Francisco Domingues Quintas: Industrial, 48 anos (Grijó, Porto, Abril de 1889 - Tarrafal, 22 de Setembro de 1937)
Rafael Tobias Pinto da Silva: Relojoeiro, 26 anos (Lisboa, 1911 - Tarrafal 22 de Setembro de 1937)
Augusto Costa: Operário vidreiro (Leiria, ? - Tarrafal, 22 de Setembro de 1937)
Cândido Alves Barja: Marinheiro, 27 anos (Castro Verde, Abril de 1910 - Tarrafal, 29 (24?) de Setembro de 1937)
Abílio Augusto Belchior: Marmorista, 40 anos (?, 1897 - Tarrafal, 29 de Outubro de 1937)
Francisco do Nascimento Esteves: Torneiro mecânico, 24 anos (Lisboa, 1914 - Tarrafal, 21 (29?) de Janeiro de 1938)
Arnaldo Simões Januário: Barbeiro, 41 anos (Coimbra, 1897 - Tarrafal, 27 de Março de 1938)
Alfredo Caldeira: Pintor decorador, 30 anos (Lisboa, 1908 - Tarrafal, 1 de Dezembro de 1938)
Fernando Alcobia: Vendedor de jornais, 24 anos (Lisboa, 1915 - Tarrafal, 19 de Dezembro de 1939)
Jaime da Fonseca e Sousa: Impressor, 38 anos (Tondela, 1902 - Tarrafal, 7 de Julho de 1940)
Albino António de Oliveira Coelho: Motorista, 43 anos (?, 1897 - Tarrafal, 11 de Agosto de 1940)
Mário dos Santos Castelhano: Empregado de escritório, 44 anos (Lisboa, Maio de 1896 - Tarrafal, 12 de Outubro de 1936)
Jacinto de Melo Faria Vilaça: Marinheiro, 26 anos (?, Maio de 1914 - Tarrafal, 3 de Janeiro de 1941)
Casimiro Júlio Ferreira: Funileiro, 32 anos (Lisboa, 4 de Fevereiro de 1909 - Tarrafal, 24 de Setembro de 1941)
Albino António de Oliveira de Carvalho: Comerciante, 57 anos (Póvoa do Lanhoso, 1884 - Tarrafal, 22 (23?) de Outubro de 1941)
António Guedes de Oliveira e Silva: Motorista, 40 anos (Vila Nova de Gaia, 1 de Maio de 1901 - Tarrafal, 3 de Novembro de 1941)
Ernesto José Ribeiro: Padeiro ou servente de pedreiro, 30 anos (Lisboa, Março de 1911 - Tarrafal, 8 de Dezembro de 1941)
João Lopes Dinis: Canteiro, 37 anos (Sintra, 1904 - Tarrafal, 12 de Dezembro de 1941)
Henrique Vale Domingues Fernandes: Marinheiro, 28 anos (?, Agosto de 1913 - Tarrafal, 7 de Janeiro (Julho?) de 1942)
Bento António Gonçalves: Torneiro mecânico, 40 anos (Fiães do Rio (Montalegre), 2 de Março de 1902 - Tarrafal, 11 de Setembro de 1942)
Damásio Martins Pereira: Operário (? - Tarrafal, 11 de Novembro de 1942)
António de Jesus Branco: Descarregador, 36 anos (Carregosa, 25 de Dezembro de 1906 - Tarrafal, 28 de Dezembro de 1942)
Paulo José Dias: Fogueiro marítimo, 39 anos (Lisboa, 24 de Janeiro de 1904 - Tarrafal, 13 de Janeiro de 1943)
Joaquim Montes: Operário corticeiro, 30 anos (Almada, 11 de Setembro de 1912 - Tarrafal, 14 de Fevereiro de 1943)
Manuel Alves dos Reis (? - Tarrafal, 11 de Junho de 1943)
Francisco Nascimento Gomes: Condutor, 34 anos (Vila Nova de Foz Côa, 28 de Agosto de 1909 - Tarrafal, 15 de Novembro de 1943)
Edmundo Gonçalves: 44 anos (Lisboa, Fevereiro de 1900 - Tarrafal, 13 de Junho de 1944)
Manuel Augusto da Costa: Pedreiro (? - Tarrafal, 3 de Junho de 1945)
Joaquim Marreiros: Marinheiro, 38 anos (Lagos, 1910 - Tarrafal, 3 de Novembro de 1948)
António Guerra: Empregado de comércio, 35 anos (Marinha Grande, 23 de Junho de 1913 - Tarrafal, 28 de Dezembro de 1948)

Encerramento e reactivação

O Campo do Tarrafal encerrou em 1954, tendo sido reactivado em 1961, sob a denominação de Campo do Chão Bom, para receber prisioneiros oriundos das colónias portuguesas.

In WIKIPÉDIA

30 Abril 2008

O 25 de Abril em Poesia -



Com flores, com perfumes, com canções,
com crianças correndo na Avenida,
com lagartas, chaimites e canhões
e um cravo na G-3 gritando vida,


com os peitos arfando, e os corações
batendo de alegria desmedida,
subiam e desciam multidões
respirando a manhã reaparecida.


O corpo do meu Povo estremeceu
ao ver a Liberdade ali, à mão,
como uma flor que, súbito, aparece.


E a flor da Liberdade, então, colheu,
colocando-a bem junto ao coração
para que Abril ali permanecesse.



Fernando Peixoto


(Agradeço ao Amigo Albino Santos o envio deste poema)

Porto - 25 de Abril de 1974





O 25 de Abril no Porto


O 25 de Abril no Porto não teve a espectacularidade, o sincronismo e a determinação dos operacionais de Lisboa. Não teve, desde os primeiros momentos, a força e a generosidade espontânea do povo anónimo da Invicta. O povo do Porto só encheu a Avenida dos Aliados, a Praça do Município e a Praça da Liberdade, mais para o fim da tarde, depois de se saber que a marcha da revolução já era irreversível!

A indecisão, a falta de firmeza e as atitudes ambíguas por parte de algumas das forças ligadas ao Movimento, uma acção mais destemida e concentrada das forças fiéis ao regime, o corte dos telefones e da energia eléctrica ao Centro Emissor de Miramar do RCP, deu tempo para que as forças hostis ao Movimento mostrassem as suas garras.


Cronologia dos acontecimentos:


24/04/74

3 horas da manhã – A esta hora foi recebido no CICAP (Centro de Instrução de Condução Auto do Porto) o "Plano Geral das Operações". Homens da confiança do MFA e com este comprometidos, distribuíram essas instruções por todas as Unidades do Norte do País.

O major Delgado da Fonseca, ligado ao Movimento dos Capitães desde o seu início, foi destacado para o Porto em Janeiro de 1974. Foi um dos responsáveis pelo núcleo do Norte do MFA. Depois do Golpe das Caldas (16 de Março de 1974), apesar de vigiado e seguido pela Pide, foi transferido para Lamego para substituir oficiais demitidos após aquele Golpe.

22.30 horas – O major Delgado da Fonseca reuniu-se, num dos quartéis de Lamego, com os instrutores e outros elementos da sua confiança. Deu-lhes a conhecer o Programa do MFA e a operação que se iria desencadear nas primeiras horas do dia 25 de Abril, em Lisboa. Obtido o apoio de todos, foi constituída uma Companhia de Comandos que, armados até aos dentes, marchou sobre o Porto.


25/04/74

Até às 3 horas da madrugada: - Desde a primeira hora que o comandante do CICAP aderira ao MFA. No seu gabinete, juntamente com outros oficiais, com os ouvidos colados à telefonia, esperavam ouvir as “senhas”. A sintonia dos Emissores Associados de Lisboa era péssima e por isso não ouviram nem a “senha” nem a canção do Paulo de Carvalho. Sintonizaram a Rádio Renascença e aguardaram a segunda “senha”. À meia-noite e vinte minutos foi lida a primeira quadra de Grândola Vila Morena, seguida da canção do Zeca Afonso. Iniciada a operação e, como o segundo comandante não aderira ao Movimento, este teria de ser preso. Segundo o plano traçado por Otelo competia aos oficiais e soldados executarem as tarefas que lhes cabiam.

Em Lamego, depois dos instruendos terem sido informados do que se estava a passar e terem aderido ao Movimento, o Quartel Central onde se encontrava o major Delgado da Fonseca foi tomado pelos revoltosos. Às 3 horas da manhã partiram rumo ao Porto, tendo como missão ocupar a Pide/Dgs.

No Porto, tudo estava a correr como o previsto. O coronel Ramos Freitas, chefe da Região Militar do Porto, não aderira ao Movimento e foi necessário prendê-lo.

No RCP, na delegação do Porto, era difundida música, anúncios, notícias e comentários.

Às 2 horas, no Centro Emissor de Miramar, entrou de serviço o técnico Telmo de Morais. Nos estúdios de Tenente Valadim, no Porto, estava de serviço o operador Antero Rodrigues que controlava a emissão. Estava no ar, em simultâneo com Lisboa, o programa "A noite é nossa".


Das 4 às 6 horas da madrugada:

4 horas - Mudança na programação do RCP. Transmitia-se só música, muito poucas palavras e publicidade... nada!

4.26 horas - Joaquim Furtado leu o 1º Comunicado do Posto de Comando do Movimento das Forças Armadas, seguindo-se de marchas militares. Telmo de Morais telefonou a Antero Rodrigues, em Tenente Valadim, chamando-lhe a atenção que algo de insólito se estava a passar. Este ficou com atenção à programação e ouviu o 2º Comunicado do MFA. Contactou imediatamente os estúdios de Lisboa que lhe disseram: "Eh, pá, não se está a passar nada, isto está normal, normalíssimo… Oh, pá, mas isto está tudo bem, não há problema nenhum, está tudo porreiro... Estão aqui uns militares amigos… Oh, pá, não posso dizer mais nada... Estão aqui militares amigos… Está tudo bem, tudo normal... E agora tenho que desligar!" Telefonou imediatamente para Miramar e pôs Telmo Morais a par da situação. Tentou, ainda, novo contacto com Lisboa mas os telefones não funcionavam.

4.30 horas - Telefonaram para casa do coronel Ramos Freitas, solicitando a sua presença urgente no QG. Ao sair de casa este foi preso por vários oficiais e soldados que o aguardavam e o levaram para o CICAP, onde foi fazer companhia ao 2º comandante desta Unidade, igualmente preso. De várias Unidades do Porto saíram homens e material rumo a objectivos desconhecidos.

5 horas - Fui acordado pelo telefonema de um amigo que me disse que algo de muito importante se estava a passar e que em Lisboa havia tropas na rua, no Porto havia movimentações militares e que o RCP estava a transmitir comunicados, marchas militares e canções proibidas. Saltei logo da cama e fui para a rua, sem antes dar a notícia a outros amigos…as primeiras pessoas, incrédulas e cheias de medo, começaram a aparecer nas ruas da cidade! Os telefones foram cortados em vários sectores, dificultando as comunicações entre as várias Unidades e o Quartel-General. As Unidades de Braga, Viana do Castelo e o RAP 1 tomaram as suas posições, conforme o plano previamente estabelecido.


Das 6 às 9 da manhã

6 horas - Dois camiões militares pararam enfrente ao Emissor de Miramar, os militares desembarcaram e cercaram o Emissor. Entraram no edifício e disseram a Telmo Morais que estavam ali para proteger e defender os emissores e as instalações do RCP. Em Tenente Valadim foi desfeito o simultâneo com Lisboa e retomada a programação normal. Apesar dos pedidos dos militares para ser retomado o simultâneo com Lisboa, este não foi feito.

7 horas - A Companhia de Comandos vinda de Lamego parou no Campo 24 de Agosto. O major Delgado da Fonseca telefonou de uma cabine pública para o QG (Praça da República) mas os telefones estavam cortados. Telefonou, depois, para o CICAP. O brigadeiro Eurico Corvacho alterou a missão dos Comandos e pediu-lhes que se dirigissem para esta Unidade. Um aparatoso e barulhento cortejo militar atravessou a cidade, passando pela Avenida dos Aliados, Rua dos Clérigos, Praça dos Leões, Carmo (mesmo nas barbas da GNR) e terminou no CICAP.

8 horas - A CHENOP (concessionária da energia eléctrica do Norte de Portugal) cortou a corrente eléctrica a Miramar, o que veio a impossibilitar que os militares e a população seguissem o desenrolar das operações em Lisboa. As tropas tomaram posições nos lugares chaves. Militares, carros de assalto e armas pesadas viram-se um pouco por toda a cidade. Na Ponte da Arrábida estavam tanques virados para o Sul; um blindado munido de um canhão apontava para a Câmara; soldados e carros moviam-se no aeroporto de Pedras Rubras...

8.30 - O Regimento de Infantaria 6 e o oficial que estava em Miramar tiveram a atitude de firmeza necessária para que o RCP retomasse o simultâneo com Lisboa. A partir daqui as operações começaram a desenrolarem-se ao ritmo desejado. Os comandos recém-chegados de Lamego, dividiram-se em dois grupos: um, dirigiu-se a Tenente Valadim e ocupou militarmente o RCP; outro, dirigiu-se para a Companhia dos Telefones e resolveram o corte dos telefones; o outro grupo dirigiu-se para os Estúdios da RTP, no Monte da Virgem, tomando-o sem qualquer resistência. As estações de rádio começaram a transmitir marchas militares, música de intervenção e comunicados.


A partir da 9 horas da manhã

9 horas - As pessoas, agora em maior número, começaram a juntar-se na Baixa portuense, em busca de notícias frescas, de união e de esperança. Estabeleceu-se uma comunhão recíproca entre populares e militares. Houve sorrisos no ar, compartilhou-se cigarros, comida, bebida, cravos vermelhos, palavras de ordem, gritos de vitória… Apesar dos apelos lançados pelo Posto de Comando do Movimento das Forças Armadas e pelo Posto de Comando do MFA no Porto, o comandante da PSP mandou para a rua os seus homens, numa tentativa de intimidação e de provocação.

11 horas - O RCP ficou, a nível nacional, sem a rede de Modulação de Frequência e o Posto de Comando do MFA só era escutado através do emissor de Lisboa de Onda Média. Já no Porto, o major Delgado da Fonseca espalhou oficiais à paisana pela cidade, que o mantiveram informado não só do desenrolar das operações como também da aderência e do entusiasmo popular.

15 horas - A Baixa começou a ter uma moldura humana que buscava notícias. São os militares que orientavam o trânsito, respondiam às perguntas das pessoas e confraternizam com elas. Um grande jornal de parede, na entrada do jornal "O Comércio do Porto" dava as últimas notícias (constantemente renovadas) sobre o evoluir da revolução. Na Avenida dos Aliados e na Praça da Liberdade a multidão que engrossava a cada minuto que passava, começou aos gritos de "vitória", "viva o MFA", "abaixo o fascismo" "morte à Pide"…. Foi nesta altura que a polícia transportada em várias carrinhas carregou, lançando o pânico entre os manifestantes batendo, como era habitual nestas situações, nos populares indefesos. O simples engatilhar das armas dos soldados fez com que a polícia fugisse em debandada pela Avenida em direcção à Praça da Liberdade, largando cacetetes, bonés, sapatos e crachás. As carrinhas, ao tentarem fugir, foram alvo da fúria da multidão que carregou sobre elas, quebrando os vidros e ferindo os polícias que fugiam com gritos de pânico. Dos gritos "Morte à Pide", "Fascismo nunca mais" as palavras de ordem começaram a ser substituídas por "Liberdade para os presos políticos". A multidão começou a sair da Praça e a caminhar para a Rua do Heroísmo, tentando assaltar a Sede da tenebrosa polícia. A PSP que guardava a Pide foi atacada pela multidão. Houve tiros, correria de pessoas mas, pouco depois o número de manifestantes engrossou e a atitude destes não deixava qualquer dúvida. A PSP foi substituída por soldados, que tentaram pôr um tampão entre os manifestantes e elementos daquela polícia política.

Durante a noite o movimento na Baixa da cidade e na Rua do Heroísmo era muito. Cantava-se, davam-se vivas ao MFA, aos Soldados, aos Marinheiros. À Liberdade e esperava-se, pacientemente, o comunicado à Nação a ser feito pela Junta de Salvação Nacional recentemente formada.


26/04/74

Durante a madrugada e a manhã deste dia a multidão manteve-se compacta na sede da Pide, os agentes desta polícia resistiram e queimaram documentos, o que veio a dar origem a um reforço de tropas, com muitas viaturas e carros de assalto. Depois de intensas negociações, os presos políticos encarcerados na Rua do Heroísmo foram libertados, debaixo de uma forte ovação. Os agentes foram presos e conduzidos em viaturas militares para o Quartel da Região Militar do Porto, debaixo de uma vaia tremenda. Alguns carros que estavam nas proximidades do edifício e que "segundo parecia" pertenciam a agentes daquela polícia política, foram alvo da sanha da população enfurecida que os destruiu, entre gritos de júbilo!


Para concluir…


A Revolução de 1974 veio pôr termo ao regime autoritário implantado pela Revolução de 28 de Maio de 1926 e abrir caminho a um regime democrático assente no reconhecimento dos direitos, garantias e liberdades fundamentais dos cidadãos e numa concepção pluralista do poder político.


“Coimbra, 27 de Abril de 1974 – Ocupação das instalações da Pide.

Enquanto, juntamente com outros veteranos da oposição ao fascismo, presenciava a fúria de alguns exaltados que reclamavam a chacina dos agentes, acossados lá dentro, e lhes destruíam as viaturas, ia pensando no facto curioso de as vinganças raras vezes serem exercidas pelas efectivas vítimas da repressão. Há nelas um pudor que as não deixa macular o sofrimento.

São os outros, os que não sofreram, que se excedem, como se estivessem de má consciência e quisessem alardear um desespero que jamais sentiram”.

(In “Diário XII” . Miguel Torga)

José Gomes

Texto CHUVISCOS

25 Abril 2008

25 de ABRIL 2008 - As minhas fotos

24 Abril 2008

25 DE ABRIL, SEMPRE!

18 Abril 2008

25 de Abril - Textos de Miguel Torga





Coimbra, 25 de Abril de 1974 - Golpe militar. Assim eu acreditasse nos militares. Foram eles que, durante os últimos macerados cinquenta anos pátrios, nos prenderam, nos censuraram, nos apreenderam e asseguraram com as baionetas o poder à tirania. Quem poderá esquecê-lo? Mas pronto: de qualquer maneira, é um passo. Oxalá não seja duradoiramente de parada...

Coimbra, 27 de Abril de 1974 - Ocupação das instalações da Pide. Enquanto, juntamente com outros veteranos da oposição ao fascismo, presenciava a fúria de alguns exaltados que reclamavam a chacina dos agentes, acossados lá dentro, e lhes destruíam as viaturas, ia pensando no facto curioso de as vinganças raras vezes serem exercidas pelas efectivas vítimas da repressão. Há nelas um pudor que as não deixa macular o sofrimento. São os outros, os que não sofreram, que se excedem, como se estivessem de má consciência e quisessem alardear um desespero que jamais sentiram.


Coimbra, 25 de Abril de 1975 - Eleições sérias, finalmente. E foi nestes cinquenta anos de exílio na pátria a maior consolacão cívica que tive. Era comovedor ver a convicção, a compostura, o aprumo, a dignidade assumida pela multidão de eleitores a caminhar para as urnas, cada qual compenetrado de ser portador de uma riqueza preciosa e vulnerável: o seu voto, a sua opinião, a sua determinação. Parecia um povo transfigurado, ao mesmo tempo consciente da transcendência do acto que ia praticar e ciente da ambiguidade circunstancial que o permitia. O que faz o aceno da liberdade, e como é angustioso o risco de a perder! Assim os nossos corifeus saibam tirar do facto as devidas conclusões. Mas duvido. Nunca aqui os dirigentes respeitaram a vontade popular, mesmo quando aparentam promovê-la. No fundo, não querem governar uma sociedade de homens livres, mas uma sociedade de cúmplices que não desminta a degradação deles.


Coimbra, 25 de Abril de 1977 - O que são as vidas! Chegado ao termo da minha, é que vejo como gastei os anos a correr atrás de foguetes doutra romaria. O que eu me desesperei por coisas perfeitamente vãs, a energia que gastei a cumprir deveres absurdos! Escrever era fundamentalmente o que me importava. E foi à escrita que dei menos horas e as mais cansadas. A maior parte do tempo perdi-o a ser médico, chefe de família, cidadão. Um médico apenas escrupuloso, um chefe de família apenas cumpridor, um cidadão apenas honrado. Em cursivo é que punha a paixão e a esperança. Mas roubei à caneta os melhores momentos, e fiz os versos quase às escondidas, como quem pratica vícios secretos. Em vez de me entregar de corpo e alma à vocaçao, servi-a como Deus é servido. E agora pego-lhe com um trapo quente. Nem posso voltar atrás, nem arrepiar caminho. É tarde demais para tudo. Até para morrer.



Textos recolhidos AQUI

10 Abril 2008

FRANCISCO DA COSTA GOMES





Francisco da Costa Gomes nasceu em Chaves em 1914. Iniciou a sua carreira militar em 1931 e, em 1944, licenciou-se em Ciências Matemáticas. Em 1958, foi nomeado subsecretário de Estado do Exército, cargo de que foi exonerado devido às suas divergências com a política colonial. Como brigadeiro e general, exerceu os cargos de 2º Comandante e Comandante da Região Militar de Moçambique, entre 1965 e 1969. Entre 1970 e 1972, foi comandante chefe das Forças Armadas de Angola e, em Outubro desse ano, seria nomeado Chefe do Estado-Maior General das Forças Armadas, cargo de que foi exonerado a 14 de Março de 74. Retomou estas funções após o 25 de Abril de 1974, enquanto membro da JSN e, em Setembro de 1974, ascendeu ao cargo de Presidente da República, onde permaneceu até 13 de Julho de 1976. Atingiu o marechalato em 1981. Esteve ligado ao Conselho Mundial da Paz e foi membro activo da organização Generais pela Paz.Faleceu em 2001.

28 Março 2008

OTELO SARAIVA DE CARVALHO




É considerado o grande estratega do 25 de Abril de 1974. Corajoso e determinado, Otelo Saraiva de Carvalho ajudou a pôr fim ao regime marcelista. Foi responsável pelo sector operacional da comissão coordenadora do MFA, que dirigiu nesse dia as operações militares. O golpe que intentou em 25 de Novembro de 1975 afastou-o de posições de poder mas, recuperada a imagem, candidatou-se à Presidência da República por duas vezes. Foi preso no caso das FP-25, mas acabou amnistiado em 1996. “Devemos-lhe imenso”, assegura Fernando Lopes.


Nascido em Lourenço Marques, Moçambique, em 31 de Agosto de 1936, Otelo Saraiva de Carvalho é conhecido como o chefe operacional do golpe de Estado de 25 de Abril de 1974. Foi determinante para o fim da ditadura, no posto de comando clandestino instalado no Quartel da Pontinha. O sonho materializava-se. Nunca será esquecido devido à sua coragem e astúcia.

Otelo esteve em Angola de 1961 a 1963 e na Guiné de 1970 a 1973. Na fase final da guerra, foi um dos principais impulsionadores do movimento de contestação ao Decreto-Lei n.º 353/73, que dava a possibilidade aos milicianos do quadro especial de oficiais de ultrapassarem os capitães do quadro permanente nas suas promoções. Isto deu início ao movimento dos capitães e ao movimento das forças armadas (MFA). Foi precisamente como responsável pelo sector operacional da comissão coordenadora do MFA que dirigiu os acontecimentos do 25 de Abril. O desejo de liberdade e o descontentamento em relação à política seguida pelo governo na guerra colonial foram as motivações de Otelo Saraiva de Carvalho. “Um actor político com imensa coragem física”, diz o cineasta Fernando Lopes.

Após a queda do I Governo Provisório, ficou à frente do Comando Operacional do Continente (COPCON). Mas, pouco tempo depois, o governo substituiu-o no comando do organismo, o que levou Saraiva de Carvalho a intentar um golpe em 25 de Novembro de 1975. Saiu derrotado e foi preso.

Três meses depois de ser solto, e de reabilitar a sua imagem, chega outro dos momentos fundamentais da sua vida: a candidatura às eleições presidenciais de 1976, e de novo em 1980, como candidato apoiado pela extrema-esquerda; nas primeiras eleições conseguiu metade dos votos dos comunistas. Em 1984 voltou a ser preso, desta vez sob a acusação de envolvimento com as Forças Populares 25 de Abril (FP-25), grupo revolucionário responsável por mortes, atentados e confrontos com a polícia. Foi libertado cinco anos mais tarde, ficando a aguardar julgamento em liberdade provisória, tendo sido amnistiado em 1996. Otelo Saraiva de Carvalho é, ainda hoje, uma referência para os activistas de esquerda em Portugal.


Texto Daqui

14 Março 2008

SALGUEIRO MAIA

Foto de Wind in WORDS



Fernando José Salgueiro Maia nasceu em Castelo de Vide em 1944. Em 1966 ingressou na Escola Prática de Cavalaria (Santarém). Faz a guerra colonial em Moçambique (1967–69), e na Guiné (1971 –73). Foi um dos elementos mais activos do MFA, tendo participado em inúmeras reuniões conspirativas.
No dia 25 de Abril de 1974, comandou a mais poderosa força dos militares revoltosos, a coluna militar que saiu da EPC (Escola Prática de Cavalaria) de Santarém e marchou sobre Lisboa, ocupando o Terreiro do Paço, e fazendo frente às forças do Regime que aí se concentraram. Horas mais tarde, comanda o cerco ao Quartel do Carmo, que termina com a rendição de Marcelo Caetano. Após a entrega do chefe do governo destituído, no Quartel da Pontinha, às ordens dos revoltosos, monta a guarda na Cova da Moura aos dirigentes saídos da Revolução: a Junta de Salvação Nacional. No dia seguinte, regressa ao seu lugar na Escola Prática de Santarém. Recusou, ao longo dos anos, ser membro do Conselho da Revolução, adido militar numa embaixada à sua escolha, governador civil de Santarém e pertencer à casa Militar da Presidência da República. Promovido a major em 1981. Morre em 1992.

04 Janeiro 2008

António de Spínola






Dicionário da História do Estado Novo Fernando Rosas, J.M. Brandão de Brito
António Sebastião Ribeiro de Spínola (1910-1996)

Primeiro presidente da República do regime saído da revolução de 25 de Abril (entre 15 de Maio e 30 de Setembro de 1974). Nasceu em Estremoz. Frequentou o Colégio Militar, a Escola Politécnica de Lisboa e a antiga Escola Militar onde concluiu o curso de Cavalaria, sendo promovido a alferes em 1933. A carreira militar fê-la, basicamente, ao serviço de diversas unidades de Cavalaria e da Guarda Nacional Republicana. Em 1937 e já como tenente, visita a Espanha em plena guerra civil e em 1941 a frente germano soviética em Leninegrado. Ainda durante a Segunda Guerra Mundial é promovido a capitão, em 1943 e, em 1945, mobilizado para o Estado-Maior do Comando Militar dos Açores.

Durante os anos 50, a par da carreira militar que nunca abandonou, inicia uma carreira na área económica e empresarial. Entre 1955 e 1964 pertenceu ao conselho de administração da Siderurgia Nacional onde contacta, pela primeira vez, com a experiência de organização e gestão. Promovido a major em 1956 e a tenente-coronel em 1961, quando nesse mesmo ano estala a guerra colonial em Angola, Spínola oferece-se como voluntário. Já coronel, regressa a Lisboa em 1964 e é colocado na direcção da arma de Cavalaria. Em 1966 é promovido ao posto de brigadeiro e passa a desempenhar as funções de segundo-comandante da Guarda Nacional Republicana. Em Maio de 1968, por escolha do Conselho de Ministros, é nomeado, simultaneamente, governador e comandante-chefe das Forças Armadas da Guiné.

Começava aqui a sua primeira experiência política que marcaria, decisivamente, a evolução futura do seu pensamento e da sua acção. Ao chegar à Guiné, Spínola estava consciente de que a guerra que se travava era uma questão essencialmente política e que como todas as «guerras subversivas» não se ganhava nem tinha, muito provavelmente, uma solução no campo militar. Essa consciência, que vai reforçando com o tempo e a evolução dos acontecimentos, leva-o a uma mudança profunda: na política, enquanto governador e na estratégia enquanto comandante-chefe das FA. No campo estritamente militar, reestruturou os comandos e introduziu novos métodos de conduta operacional. O mais importante, contudo, residiu no reforço das componentes não militares da sua estratégia, ou seja, da componente política. No campo governativo, procurou uma melhoria das condições de vida das populações - habitação, saúde, educação - sempre enquadrada e explorada por campanhas de propaganda política que se inseriam, aliás, no quadro das técnicas da chamada «acção psicológica».

Em paralelo e com o mesmo sentido político, promoveu o empenhamento das populações guineenses na participação política e na defesa territorial da Guiné. O resultado foram os chamados Congressos do Povo, que se reuniriam, anualmente, a partir de 1970 e as Companhias Africanas que deveriam constituir uma força militar regional. Desde esse mesmo ano de 1970, Spínola inicia, secretamente, os primeiros contactos com o PAIGC, com o objectivo de associar ambas as partes a um eventual futuro projecto de autodeterminação da Guiné, no quadro de um modelo de associação de tipo federal, ainda impreciso, mas que começava a desenhar-se no seu pensamento.

A consciência de que a solução seria política e a degradação da situação de guerra levam-no a alterar o conceito estratégico militar e a conceber uma acção de guerra fora do território colonal português - o raid à Guiné-Conakry que tinha um triplo objectivo: em primeiro lugar, libertar um grupo de prisioneiros de guerra portugueses; em segundo lugar e de acordo com a oposição da Guiné-Conakry, aniquilar Sékou Touré, impondo, assim, um interlocutor mais favorável a Portugal; e, finalmente, trazer para a Guiné no sentido de pressionar as negociações. Conseguiu o primeiro, falhou, rotundamente, os dois outros.
Já em 1973, o assassinato de e a ocupação efectiva de parte do território da Guiné pelo PAIGC irão precipitar a declaração unilateral de independência da Guiné-Bissau.

General desde 1972, Spínola regressa a Lisboa, em Setembro de 1973, com o peso de um fracasso militar, mas com o capital simbólico de não ter conseguido uma solução política por falta de apoio do poder central. Em Janeiro de 1974 é nomeado vice-chefe do Estado-Maior-General das Forças Armadas e em Fevereiro publica Portugal e o Futuro. Spínola defendia, então, publicamente, a sua tese de uma solução política para a questão colonial e um modelo de autodeterminação e associação de tipo federal para as colónias portuguesas. A consequência imediata é a exoneração do cargo, em Março de 1974. Estava consumada a ruptura com o .

E quando, em 25 de Abril, a revolução triunfante depõe o regime anterior, é Spínola quem recebe, simbolicamente, o poder das mãos de Marcelo Caetano. Instituída a Junta de Salvação Nacional, é eleito seu presidente e, a 15 de Maio de 1974, proclamado presidente da República. Com o apoio militar de sectores que lhe eram incondicionais no Exército e a cobertura política do primeiro-ministro do I Governo Provisório, Palma Carlos, ensaiou, sem êxito, uma tentativa de concentração de poderes pela via referendária. Em breve, suscitou a oposição de sectores mais à esquerda das forças políticas e do Movimento das Forças Armadas. A subida ao poder de Vasco Gonçalves e do 1.º Governo Provisório eram já um sinal da sua perda de poder perante a maior influência da comissão coordenadora do MFA e do . Sem capacidade para impor as suas posições na política interna e, sobretudo, o seu modelo para a descolonização, Spínola é obrigado a abandonar a tese federal e reconhecer o direito à independência das colónias portuguesas, a 27 de Julho.
Na sequência do golpe de 28 de Setembro, face à evolução do processo revolucionário, sem margem de manobra e sem apoio efectivo das chefias militares e do Conselho de Estado, renuncia à Presidência, num discurso em que alerta o país para a ameaça de um novo totalitarismo. Estava-se a 30 de Setembro. Em 11 de Março de 1975 lidera um movimento militar frustrado que visava a tomada do poder e a inflexão do curso socializante do processo revolucionário que viria a triunfar. Derrotado, é demitido do Exército e levado ao exílio, primeiro em Espanha, depois no Brasil.
Em Julho de 1975 funda o Movimento Democrático de Libertação de Portugal (MDLP) que durante o «Verão quente» se lançou em atentados bombistas e outras acções de terrorismo urbano contra o e as forças políticas mais à esquerda da sociedade portuguesa. Se é certo que não teve qualquer responsabilidade material pela violência política, não pode dizer-se que não lhe tenha emprestado cobertura moral. Com o triunfo do 25 de Novembro de 1975, dissolve o MDLP, regressa a Portugal, é reintegrado no Exército e afasta-se da política. Em Dezembro de 1981, por decisão do Conselho da Revolução, é promovido ao posto de marechal. E em Fevereiro de 1987 recebe a grã-cruz da Ordem Militar da Torre e Espada e é feito chanceler das Ordens Honoríficas Militares, cargo que manteve até à morte.


Elementos colhidos em http://www.25abril.org/

10 Dezembro 2007




02 Dezembro 2007

Esclarecimento e Convite





TESTEMUNHOS



Motivado por uma reportagem da TV onde em resposta a diversas questões e nomes relacionados com o 25 de Abril de 1974 o desconhecimento era total, pensei lançar um blog com os testemunhos pesquisados na net.

E assim nasceu o TESTEMUNHOS.

Comecei por colocar vídeos de músicas conhecidas e de artistas de intervenção, personagens que acompanharam o antes e pós revolução.

Seguiu-se matéria da VIKIPÉDIA – 25 de Abril –Antecedentes

Outros vídeos de Zeca Afonso foram colocados
.
Elementos recolhidos no Centro de Documentação 25 de Abril - Universidade de Coimbra, apresentam um resumo dos acontecimentos de 1974-1975-1976.

Na CRÓNICA DO AUDIO VISUAL colhemos os elementos que fizeram o nosso post: HAJA MEMÓRIA.
Na última actualização servimo-nos do que se escreve em http://resistir.info e colocámos o post 25 de NOVEMBRO.
A intenção deste blog é reunir todos os elementos sobre o 25 de Abril que vou pesquisando na net.
Acho-o interessante principalmente para os jovens que ainda não eram nascidos naquela altura e para outras camadas de leitores que queiram rever esses acontecimentos.
Tenho a noção que não terá a melhor apresentação estética mas os textos são cópia fiel do que se encontra nas fontes indicadas.
Haverá certamente outros dados e outras fontes onde poderei pesquisar novos elementos. O tempo e a minha disponibilidade o dirá.
Em face do comentário, abaixo transcrito,





Peter disse...

Meu caro

Vem falar-me de acontecimentos que eu vivi pessoalmente e de pessoas que eu conheci e conheço pessoalmente, utilizando o livro do Gomes Mota, que dormia na mesma camarata que eu, na Escola do Exercito, onde frequentou o 1º ano do Ciclo Preparatorio, para poder depois seguir para a Escola Naval.

O mundo é pequeno, todos nos conhecemos e, por isso, é preciso cuidado com o que se escreve e, sobretudo, do que se escreve e como se escreve.
27/11/07 9:49 AM





Convidei então o Peter no seu blog Conversas de Xaxa:

Lumife disse...
Grato pela visita e pelas palavras deixadas no Testemunhos.
É um blog que me deu muita alegria colocar na net tanta quanto vivi feliz o 25 de Abril.
É um trabalho de pesquisa que sempre poderá ser acrescentado com relatos pessoais de quem viveu esses tempos.
Aqui fica o convite se entenderes também contribuir com a tua colaboração.

Votos de bom fim de semana


Abraço
01 Dezembro, 2007 14:44






No mesmo dia recebi a resposta:






Peter disse...

Acabo de percorrer de cima abaixo o
http://alentejototal.blogspot.com/

Sou uma pessoa sincera. Não gostei. É um amontoado de dados, não sei se inexactos, pois não me dei ao trabalho de os ler todos, mas necessariamente incompletos e politicamente tendenciosos. Permito-me falar assim pois como escrevi, vivi os acontecimentos e conheci e conheço pessoalmente muitos dos intervenientes.

Do que queres que te fale, de quem queres que te fale e como queres que o faça?

Queres que te fale do Carlos Fabião, gravemente doente e que queria por força levantar-se para ir votar, no que foi impedido pelo amigo Fontão?
12/01/2007 07:50:00 PM





Em minha opinião acho que quem viveu tão de perto todos os acontecimentos e seus intervenientes terá muito a dizer e a esclarecer. É um direito de cidadania intervir na coisa pública e repôr a verdade se esta foi adulterada.

O convite feito ao Peter é extensivo a todos quantos queiram participar neste blog trazendo informações, elementos, factos, fotos ou vídeos.

Para contacto aqui fica o endereço de contacto:

alentejototal@gmail.com

Saudações a todos.

25 Novembro 2007

O 25 DE NOVEMBRO



1- O golpe militar em preparação
O 25 de Novembro foi um golpe militar inserido no processo contra-revolucionário. A sua preparação começou muito antes das insubordinações e sublevações militares do verão quente e de Outubro e Novembro de 1975 .

Talvez que as mais esclarecedoras informações dessa preparação em curso muitos meses antes de Novembro sejam as que dá o comandante José Gomes Mota no seu livro, esquecido ou guardado nas estantes, A Resistência. O Verão Quente de 1975 , Edições jornal Expresso , 2ª ed., Junho de 1976.

Segundo José Gomes Mota, o golpe foi preparado pelo «Movimento», que define por ser contra o que chama «os dissidentes», — nomeadamente «os gonçalvistas» e o PCP. Fala em «novas estruturas reorganizadas». Diz que o «Movimento» deveria ter presença activa no Conselho da Revolução ( ob. cit. , p. 93) e aceitar a «manutenção formal dos órgãos de cúpula do Movimento — Conselho da Revolução e Assembleia do MFA» ( ob. cit. , p. 95).

O «Movimento» chamava a si a preparação e decisão do golpe militar, mas, «preservando e garantindo a legitimidade revolucionária do Presidente da República» ( ob. cit. , p. 94). Segundo José Gomes Mota, a cúpula efectiva era o «Movimento», que dispunha de dois grupos dirigentes.

Um «militar», «inicialmente constituído por Ramalho Eanes, Garcia dos Santos, Vasco Rocha Vieira, Loureiro dos Santos, Tomé Pinto e José Manuel Barroso». A sua «tarefa» principal era a «elaboração de um plano de operações» ( ob. cit. , p. 99), tarefa que «cumpriu rigorosamente», tendo «para isso muito contribuído a liderança de Ramalho Eanes» ( ob. cit. , p. 100).

Outro «político», de que faria parte o «Grupo dos Nove», «veio a desempenhar o papel de um verdadeiro estado-maior de Vasco Lourenço», que «assumira a chefia do Movimento» ( ob. cit. , p.100).

O livro encerra muitas contradições e obscuridades sobre o «Movimento». Diz que «a iniciativa [de um confronto militar] teria de partir sempre dos «dissidentes» ( ob. cit. , p. 93), que o «Movimento» tinha por objectivo «evitar qualquer possibilidade de uma guerra civil» e a criação da «Comuna de Lisboa» ( ob. cit. , p. 94). Mas o facto, que importa sublinhar, é a revelação de um efectivo centro político-militar a preparar um golpe ao longo do verão quente .

Melo Antunes, por seu lado, fala da acção militar do «Grupo dos Nove» na preparação para o golpe: «Além das acções legais ou semilegais a que deitámos mão para obter a supremacia militar, também desenvolvemos acções clandestinas para nos prepararmos para uma confrontação que eu julgava inevitável. [...] Tínhamos uma organização militar em marcha. » ( Vida Mundial , Dezembro de 1998, p. 50.)

A preparação do golpe «para pôr fim a uma situação insustentável» vinha pois de longe.

Foi ulteriormente dado a conhecer que, no verão quente , muitos Comandos «deixaram os postos civis e se alistaram de novo para estarem operacionais».

A colocação de Pires Veloso no Norte em Setembro de 1975, substituindo Corvacho, que Freitas do Amaral intitula de «famigerado Brigadeiro» «afecto ao PCP» ( O Antigo Regime e a Revolução , ed. cit., pp. 245 e 406), fazia parte dessa preparação. Não foi por acaso que, no 25 de Novembro, vieram ajudar o golpe várias Companhias do Norte, que depois levaram os presos para Custóias.

O papel de Ramalho Eanes é sublinhado nas valiosas informações que, no 20º aniversário do golpe, revela Vasco Lourenço, designado em 22 de Novembro e confirmado a 24 Comandante da Região Militar de Lisboa em substituição de Otelo Saraiva de Carvalho.

Segundo Vasco Lourenço, Eanes , « responsável por organizar o plano de operações», «desempenhou papel fundamental» , e «acabou por ser o principal comandante operacional », não cedendo às pressões dos militares mais radicais (artigo «Não aconteceu o pior», in Revista História , nº 14, Novembro de 1995, pp. 37-38).

Também Jaime Neves, sublinhando que se tratou de «um golpe contra o PCP», confirma o papel de Eanes: « Conspirávamos [...] e o Eanes [...] passou a ser ele a coordenar as coisas. » (Entrevista à revista Indy , 21-11-1997.)

O papel de Eanes expressou-se aliás publicamente, logo após a vitória do golpe, em factos tão significativos como a sua ascensão a Chefe do Estado-Maior do Exército (interino em 27-11-1975 — posse em 9-12-1975) e ulteriormente a Presidente da República eleito.

Está mais que provado, assumido e confessado, que se tratou de um golpe militar contra-revolucionário há muito em preparação num turbulento processo de arrumação e rearrumação de forças.

Cerca das 10 horas da própria manhã do dia 25, prontos para desencadear as operações, os conspiradores — numa diligência conjunta do «Grupo dos Nove», Eanes, Jaime Neves e oficiais dos Comandos da Amadora — procuraram e conseguiram obter a aprovação e cobertura institucional do Presidente da República, Costa Gomes (entrevista de Costa Gomes a Maria Manuela Cruzeiro, in Costa Gomes, o Último Marechal , Editorial Notícias, 3ª ed., Lisboa, 1998, p. 357; e in revista Indy, 27-11-1998).

Para a compreensão do golpe e do que dele resultou é necessário ter em conta que, na sua preparação, participaram forças muito diversas associadas num complexo enredo de alianças contraditórias.

Todas estavam aliadas para pôr fim à influência do PCP e ao processo revolucionário, restabelecer uma hierarquia e disciplina nas forças armadas e extinguir o MFA insanavelmente em vias de destruição pelas suas divisões e confrontos internos. Mas, como resultado do golpe relativamente ao poder político e às medidas concretas a tomar, havia importantes diferenças.

Na grande aliança contra-revolucionária, internamente muito fragmentada, participavam fascistas declarados e outros reaccionários radicais, que visavam a instauração de um nova ditadura, que tomasse violentas medidas de repressão, nomeadamente a ilegalização e destruição do PCP. Participava também o Grupo dos Nove, de que alguns membros, receosos da possibilidade de saírem vitoriosas do golpe as forças mais reaccionárias, pretendiam a continuação de um regime democrático.

Da parte dos fascistas e neofascistas, a ilegalização e repressão violenta do PCP era, não apenas um desejo mas um objectivo que pretendiam fosse alcançado no imediato.

As organizações terroristas deviam também participar. Paradela de Abreu diz que «sempre tinha estado convencido de que o Plano Maria da Fonte só deveria ser desencadeado no seu «programa máximo — um programa de violência ou de guerra — em ligação com um golpe militar » ( Do 25 de Abril ao 25 de Novembro , ed. cit., p. 204), intervindo com «muitos grupos capazes de executar quem quer que fosse» ( ob. cit. , p. 197). Na noite de 25 de Novembro foi-lhe comunicado para não avançar com o «Plano» ( ob. cit. , p. 208).

Este objectivo de desencadear uma vaga repressiva de extrema violência já na altura era abertamente proclamado nas campanhas anticomunistas. E muitos anos volvidos, mais claramente o dizem, nas suas confissões, alguns dos participantes.

Jaime Neves, num jantar em sua homenagem realizado em Janeiro de 1996, declarou que « o “problema” seria resolvido “muito simplesmente com a prisão do líder do PC”, Álvaro Cunhal » ( Público , 11-1-1996). O seu estado de espírito é transparente, ao dizer que, se «havia uma manifestação realizada pelo Partido Comunista, eu recusava-me a ir com a tropa para a rua se não fosse para prender o dr. Álvaro Cunhal» (entrevista ao Semanário , 26-11-1983).

Alpoim Calvão, operacional nº 1 da rede bombista, não deu por definitivamente derrotada a extrema direita depois do 25 de Novembro. Num encontro com Pinheiro de Azevedo (então Primeiro-Ministro), solicitou que fosse permitido o regresso a Portugal de Spínola e de todos os spinolistas exilados. Não são conhecidos os termos em que colocou o problema. Pedido? Exigência? O que diz é que uma tal decisão seria «uma solução pacífica», porque, apesar do 25 de Novembro, « muitos queriam pegar em armas e vir por aí abaixo matar comunistas » (entrevista a Eduardo Dâmaso, publicada no seu livro A Invasão Spinolista , Círculo de Leitores, 1997, p. 98). É o que teriam feito, pelo que se vê, se tivessem sido eles a impor o resultado.

No próprio dia 25, não estando ainda certo como o golpe iria terminar política e militarmente, todos envolvidos num objectivo geral comum anticomunista, cada qual pretendia que o resultado correspondesse aos seus próprios objectivos.

Mário Soares e o PS tinham representado um papel importante na acção política preparatória do 25 de Novembro. Mas o golpe do 25 de Novembro não foi o que projectaram. Nenhum dos seus três objectivos centrais imediatos se concretizou. Nem a liquidação da dinâmica revolucionária e das suas conquistas. Nem o esmagamento militar do PCP, do movimento operário e da esquerda militar, nem, como resultado do golpe, ser Soares o vencedor, aquele que teria salvado a democracia de um golpe e de uma ditadura comunista e que por isso assumiria naturalmente de imediato, no poder do Estado, as responsabilidades daí decorrentes. Tal operação foi tentada mas falhou. Não é por isso exagero dizer-se que Soares ficou de fora do 25 de Novembro .

Os fascistas e neofascistas, participantes na preparação e no golpe, não conseguiram tão-pouco o que pretendiam.

Quanto ao «Grupo dos Nove», Melo Antunes (tal como Eanes e Costa Gomes) defendia uma solução política da crise. Indo no dia 26 à televisão declarar que «a participação do PCP na construção do socialismo era indispensável», deu importante contribuição para a defesa da democracia.

Como na altura considerámos, essa atitude expressava um objectivo político e uma apreensão: o objectivo de assegurar um regime democrático para o que considerava indispensável o contributo do PCP e a apreensão de que, se a extrema direita desencadeasse a repressão contra o PCP, ele e seus amigos acabariam também por ser reprimidos.

Poucos dias depois, o chefe do EMGFA, general Costa Gomes, enviou aos três ramos das Forças Armadas uma directiva na qual se afirmava que «só os militares [...] estão em condições de servir o projecto de construção da sociedade proposta pelo Movimento do 25 de Abril, sociedade onde não seja mais possível a exploração do homem pelo homem» ( Jornal de Notícias , 2-12-1975).

E, ao tomar posse como Chefe do Estado-Maior do Exército, no dia 6 de Dezembro, Ramalho Eanes, então promovido a general, declarou como «objectivos políticos prioritários a independência nacional e a construção de uma nova sociedade democrática e socialista.» ( Jornal de Notícias , 7-12-1975)



2- A tese do «contra-golpe»
Desde o 25 de Abril, todos os golpes e tentativas de golpes contra-revolucionários — golpe Palma Carlos, 28 de Setembro, 11 de Março e outros — foram explicados pelos seus autores, apoiantes e cúmplices como respostas a golpes ou tentativas de golpes do PCP visando o assalto ao poder. Assim sucedeu também no verão quente de 1975, quando forças contra-revolucionárias desenvolviam o terrorismo bombista e preparavam um novo golpe militar.

Ao contrário do que dizem (como acabamos de ver) os principais protagonistas do 25 de Novembro, Mário Soares e seus amigos não desistiram até hoje de dizer que, no 25 de Novembro, « houve uma tentativa de golpe, animado pela Esquerda Militar e pelo PCP, e uma resposta, [...] um contra-golpe da parte do sector democrático, isto é, militares moderados, “Grupo dos 9” e PS » (Maria João Avillez, Soares. Ditadura e Revolução , ed. cit., p. 487).

Esta versão dos acontecimentos foi através dos anos repetida incansavelmente.

José Manuel Barroso , sobrinho de Soares e adjunto de Spínola, é ainda mais categórico: « O 25 de Novembro [diz ele] foi um golpe de força militar, preparado pelo Partido Comunista ». «“Páras” e “fuzos” receberam, assim, ordens de saída directamente da direcção militar do PCP ». O 25 de Novembro foi «uma operação dirigida por dois postos de comando: um, militar, situado no SDCI, e outro, civil, a partir da direcção militar do Partido Comunista » ( Diário de Notícias , 25-11-1993).

Manuel Monge , destacado oficial spinolista próximo de Soares e que tinha fugido para o estrangeiro com Spínola depois do 11 de Março, afirma também que «o 25 de Novembro foi um golpe desencadeado pela ala “gonçalvista” do MFA com o total apoio do PC. » ( Público , 17-4-1994.)

E, já agora, lembremos que, em 1997, Carlucci informava a Câmara dos Representantes de que no 25 de Novembro «o golpe comunista foi derrotado » ( Dossier Carlucci/CIA , ed. cit., p. 109).

Como a orientação e acção do PCP e os acontecimentos provassem que não tinha havido nem golpe nem tentativa de golpe do PCP, inventou-se então a tese do «recuo» — a história de que o PCP, vendo que o seu golpe militar, já desencadeado, iria falhar, recuou e desistiu do golpe . Essa tese do «recuo do PCP» é condimentada com uma insultuosa afirmação de Mário Soares: que o PCP teria lançado o golpe, mas, vendo que ia ser derrotado, deixou no terreno os esquerdistas «abandonados pelo PC» à sua sorte e à repressão (Maria João Avillez, Soares. Ditadura e Revolução , ed. cit., p. 487). Falsidade e calúnia retomada por Freitas do Amaral ( O Antigo Regime e a Revolução, ed. cit., p. 477).

Explique-se. Esta invencionice, como argumento, deturpa dois factos reais: Um , as orientações dadas pela Direcção do PCP na noite de 24 para 25 a algumas das suas organizações para não se deixarem arrastar em atitudes ou na participação em aventuras esquerdistas de confronto militar (casos do Forte de Almada e do RAL 1).

Outro , uma conversa telefónica na mesma noite de 24 para 25 entre o Presidente da República Costa Gomes e o secretário-geral do PCP, Álvaro Cunhal, em que este, tendo tomado a iniciativa do contacto, nos termos habituais da ligação institucional com a Presidência da República, comunicou ao Presidente, desmentindo especulações em curso, que o PCP não estava envolvido em qualquer iniciativa de confronto militar e insistia em apontar a necessidade de uma solução política. Soares diz contudo que Costa Gomes conseguiu «convencer o Partido Comunista a desistir » do 25 de Novembro (entrevista ao Público-Magazine , 24-4-1994). A verdade é que não houve «recuo» nem «desistência» porque não houve golpe nem tentativa de golpe do PCP, mas a realização empenhada da orientação definida pelo Comité Central em 10 de Agosto, até ao último minuto, incluindo as indicações acima referidas dadas às organizações do Partido e a diligência que se lhes seguiu junto do Presidente da República.

Apesar de ficar claramente comprovado que o 25 de Novembro foi um golpe militar contra-revolucionário, há muito em preparação, Soares diz ainda, tantos anos passados, que «a tese de Álvaro Cunhal» de o 25 de Novembro ter sido um golpe e não um contra-golpe « permanece hoje historicamente indefensável » (Maria João Avillez, Soares. Ditadura e Revolução , ed. cit., p. 490).

A verdade dos factos e os testemunhos mais válidos (de Costa Gomes, de Melo Antunes, de Vasco Lourenço, de Ramalho Eanes) mostram que «indefensável» é a «tese» de Soares e seus amigos quando insistem no golpe do PCP e no contra-golpe de 25 de Novembro.



3- O «cerco» de S. Bento
Na medida em que avançava a preparação do golpe militar contra-revolucionário, travou-se acesa luta política em torno dos trabalhos e das funções da Assembleia Constituinte.

Soares pretendia (tal como Freitas do Amaral) que a Assembleia Constituinte, sem aprovar a Constituição, se transformasse de imediato num órgão do poder para fazer leis gerais e escolher novo governo. Pretendia no imediato, tendo Mário Soares como Primeiro-Ministro, formar governo em substituição do VI Governo Provisório. Jorge Miranda a pedido do PS e do PPD (segundo testemunho de Freitas do Amaral a pp. 531-532 do seu livro já citado) chegou a redigir um projecto de lei constitucional segundo o qual a «Assembleia Constituinte assume a plenitude dos poderes legislativos e de fiscalização do Poder Executivo em Portugal» (art. 1º ). Compreende-se assim melhor que, nas suas memórias, Mário Soares chame «Parlamento» à Assembleia Constituinte (Maria João Avillez, Soares. Ditadura e Revolução , ed. cit., p. 483). Pretendia ainda, como os acontecimentos pouco depois comprovaram, impedir a aprovação da nova Constituição.

Na preparação do golpe contra-revolucionário, que veio a realizar-se em 25 de Novembro, e no quadro desses objectivos, chegou a ser examinada a possibilidade de transferência para o Porto dos chefes da conspiração, de unidades militares comprometidas e da Assembleia Constituinte, para depois, a partir do Norte, desencadear a guerra civil e esmagar militarmente o Sul, o que chamaram a «Comuna de Lisboa».

O conhecimento da existência desse plano é necessário para compreender a conduta de Mário Soares no chamado «cerco a S. Bento», assim chamado pela contra-revolução.

Foi o caso de, em tão polémica situação, no dia 12 de Novembro, os trabalhadores terem realizado uma concentração em frente da Assembleia Constituinte com objectivos de carácter reivindicativo laboral .

Conhecendo as posições dos vários partidos relativas às suas reivindicações, os trabalhadores aplaudiram os deputados do PCP e alguns outros, que saíram calmamente do edifício e seguiram os seus destinos.

Mário Soares conta à sua maneira os acontecimentos:

«Vieram dizer-me que havia uma importante manifestação de operários da construção civil em frente ao Palácio. Fui a uma janela e apercebi-me de que uma verdadeira milícia paramilitar [?!!!], que enquadrava [?!!!] os manifestantes, se preparava [?!] para ocupar certas posições chave perto das saídas » (?!) (Mário Soares, Portugal: Que Revolução? , ed. cit., p. 187).

Segue-se a descrição da «fuga», que vale a pena ler como testemunho de uma operação teatral, espectacular e rocambolesca. Corredores fora no edifício, «começou a correr» com seus amigos, atravessou em correria os jardins de S. Bento até lá cima à residência do Primeiro-Ministro e saiu pelas traseiras... (Maria João Avillez, Soares. Ditadura e Revolução , ed. cit., p. 483). O próprio Soares conta este episódio com um colorido que faz inveja aos melhores ficcionistas. Leia com gosto, se tiver ocasião.

A história do «cerco de S. Bento», como ameaça comunista de assalto à Assembleia Constituinte com tais «milícias paramilitares», correu mundo, espalhada pela contra-revolução, tal como tinham sido os casos República e do Patriarcado.

A ameaça comunista e a «fuga» a que Soares fora forçado para escapar ao perigo «provavam» que a Assembleia Constituinte não tinha condições para continuar em Lisboa.

Segundo o pormenorizado plano de ir para o Norte, era imperativo deslocar a Assembleia para o Porto, para, a partir do Norte, lançar-se à conquista da «Comuna de Lisboa». É esclarecedor que, no dia 20 de Novembro, PS, PPD e CDS aprovam na Assembleia Constituinte a possibilidade de a Assembleia reunir «em qualquer momento e em qualquer lugar» ( Diário da Assembleia Constituinte , p. 2779).

Para o Porto não foi a Assembleia mas, como veremos, foi Mário Soares, pensando poder realizar o tenebroso plano, que fora rejeitado.

Quanto à manifestação dos trabalhadores, «a ordem repôs-se» com «cedências do Primeiro-Ministro a algumas das reivindicações salariais», segundo acabou por confirmar o próprio Soares (Maria João Avillez, Soares. Ditadura e Revolução , ed. cit., p. 483). Para quê ter abalado em tal correria e saído pelas traseiras?



4- O «contra-golpe» falhado
A ida, no próprio dia 25 de Novembro, de Soares para o Porto com os seus amigos, constituiu um episódio que esclarece e evidencia alguns dos mais sérios perigos de um plano muito diferente do que veio a ser o golpe do 25 de Novembro e os seus resultados.

Nesse dia, partindo para o Porto, Soares ia certamente esperançado e decidido a que o golpe contra-revolucionário vitorioso seria um confronto militar violento, que tivesse como resultado a ilegalização e repressão violenta do PCP, do movimento operário e da esquerda militar e a não aprovação da Constituição da República já elaborada pela Assembleia Constituinte.

Um tal plano foi desvendado vinte anos mais tarde pelas extraordinárias revelações de Vasco Lourenço que, nas vésperas do 25 de Novembro, substituiu Otelo no Comando da Região Militar de Lisboa e acompanhou de perto, em ligação com Eanes, a preparação final e a realização do golpe.

Vasco Lourenço revela que, já depois da formação do Grupo dos Nove e da publicação do seu documento, foi levantada e esteve quase em vias de ser aprovada a hipótese (à qual Vasco Lourenço diz ter-se oposto «firme e deliberadamente», porque seria «provocar a guerra civil») da « retirada para o Norte, com as forças que nos apoiavam (Comandos da Amadora, Artilharia de Cascais, Infantaria de Mafra e Cavalaria de Santarém), permitindo, ou provocando, [!] que se criasse a Comuna de Lisboa , que depois se procuraria reconquistar» (artigo in Revista História , nº 14, Novembro de 1995, p. 35). Seria também de considerar «passar a reunir no Porto» a Assembleia Constituinte ( ibid. ), ideia esta que Mário Soares sugere, inventando e lançando a cabala do «cerco a S. Bento» pelos comunistas. Sendo impossível à Assembleia funcionar como Constituinte em tais condições, com a ida para o Porto tornar-se-ia um Parlamento, faria leis e escolheria o governo, como consta do projecto de lei constitucional de Jorge Miranda atrás referido.

Reveladora também da natureza e execução do mesmo plano a pouco conhecida transferência para o Norte do ouro do Banco de Portugal , em «operação devidamente concertada com o sindicato dos bancários, na altura de orientação conjunta socialista e MRPP» ( Vida Mundial , Dezembro de 1998).

Os factos mostram que, ao ir para o Porto no dia 25, ainda Soares sonhava com a «hipótese» de guerra civil contra a «Comuna da Lisboa» desvendada anos mais tarde por Vasco Lourenço.

Também Melo Antunes informa «a sua vontade de evitar a deslocação do poder para o Norte, com a intenção de daí se partir à conquista da “comuna de Lisboa” » ( Vida Mundial , Dezembro de 1998, p. 50).

As revelações de Vasco Lourenço e de Melo Antunes são ainda mais esclarecedoras, se lhes acrescentarmos outras confissões, igualmente sensacionais, feitas pelo próprio Soares a Maria João Avillez: « Talvez uma semana antes do 25 de Novembro, o então Primeiro-Ministro [da Grã-Bretanha] James Callaghan enviara-me um oficial do Intelligence Service que eu, através de Jorge Campinos, apresentei aos militares operacionais [é pena não dizer quais] que, entretanto, tinham começado a gizar o seu plano militar — conforme Callaghan conta nas suas Memórias .»

«A consumar-se a divisão entre o Norte e o Sul do país [informa Soares], o Reino Unido não só nos apoiaria politicamente, como colaboraria ainda com Portugal através de apoios concretos. Prometeram-nos fazer chegar rapidamente ao Porto combustível para os aviões e também armamento. » (Maria João Avillez, Soares. Ditadura e Revolução , ed. cit., p. 491.)

Isto é: Uma semana antes do 25 de Novembro já Soares estava a combinar com os ingleses a ida para o Norte, o fornecimento de gasolina para os aviões e de armamento.

E não só. Conta Rui Mateus referindo os apoios financeiros dos ingleses: que «a entrega mais [...] volumosa, seria a 24 de Novembro, nas vésperas da partida de Mário Soares para o Porto. [...] As instruções que Mário Soares me tinha dado eram no sentido de eu me dirigir com o “pacote” a sua casa, pois o seu conteúdo era necessário para esta segunda viagem para a capital do Norte. Dirigi-me então [...] à sua casa no Campo Grande.» ( Contos Proibidos. Memórias de Um PS Desconhecido , Publicações Dom Quixote, Lisboa, 1996, p. 89.)

Acompanhemos o desenrolar dos acontecimentos militares. No dia 25 de Novembro, pilotos e aviões são levados de Tancos para Monte Real e Cortegaça, os pára-quedistas abandonados pelos oficiais saem de Tancos e ocupam o Estado-Maior da Força Aérea em Monsanto. Está tudo preparado para desencadear em Lisboa as operações do golpe contra-revolucionário há muito preparado e definido no «Plano das Operações». Soares vai à sede do PS, aí «trocando informações com os seus camaradas e recolhendo dos militares as precisões possíveis». Vai depois ao Palácio de Belém, onde «se montara um posto de informações chefiado pelo tenente-coronel Ferreira da Cunha» , o mesmo que no 11 de Março se encontrava com Manuel Alegre e outros dirigentes do PS. «Após ter sido decretado por Costa Gomes o “estado de emergência”, mas quando a situação militar era muito confusa e Lisboa estava cercada [em vez de ficar no teatro de operações do golpe a desencadear-se nesse mesmo dia], decidiu-se, numa reunião da direcção do Partido, que alguns de nós iríamos para o Porto» (Maria João Avillez, Soares. Ditadura e Revolução , ed. cit., p. 490).

Chegara para Mário Soares a hora do seu «contra-golpe», a hora do plano referido por Vasco Lourenço, ao qual este se tinha «firmemente oposto»: a retirada para o Norte «permitindo, ou provocando, que se criasse a Comuna de Lisboa, que depois se procuraria reconquistar». Agora não seria com as unidades das Forças Armadas nessa altura consideradas. Mas poderia ser com as unidades do Norte e do Centro e com os pilotos e aviões que tinham abandonado Tancos e estavam em Monte Real e Cortegaça. E com mais armas, que poderiam fornecer os amigos ingleses, conforme não só prometera Callaghan directamente, mas confirmara por intermédio de um oficial do Intelligence Service .

E, à maneira da «fuga» espectacular do «cerco de S. Bento», aí vão eles agora para o Porto — do Estoril para Sintra, pela estrada da costa, até às Caldas da Rainha, ali pela Nazaré e S. Pedro de Muel até ao Porto (Maria João Avillez, Soares. Ditadura e Revolução , ed. cit., p. 490).

Conta Freitas do Amaral que Mário Soares, imediatamente antes de partir para o Norte, lhe telefonou a «“pedir-lhe que desse instruções para os dirigentes e os Deputados do CDS irem também todos para o Porto”», a fim de a partir dali combaterem a «Comuna de Lisboa». Perguntando-lhe Freitas do Amaral: «Acha que devemos partir antes do fim-de-semana?», Mário Soares respondeu-lhe «à queima-roupa: “Antes do fim-de-semana não, Sr. Professor. Têm de partir antes do jantar. Hoje mesmo”.» ( O Antigo Regime e a Revolução , ed. cit., p. 461.)

Melo Antunes e Costa Gomes fazem interessantes apreciações à ida para o Porto de Soares e seus amigos no momento crucial do 25 de Novembro.

Melo Antunes, usa palavras importantes para compreender esta deslocação: «Admito que tenha havido conivência entre o PS e o Pires Veloso, nomeadamente na ideia da fuga para o Norte , que, do meu ponto de vista, era completamente disparatada e só ia criar condições de dramatização, que podiam conduzir à guerra civil . Passado este tempo todo, não me custa a admitir que o PS, em particular o Mário Soares, quisessem ter, mais uma vez, um enorme protagonismo no meio disto tudo, aparecendo no fim como os grandes heróis. » (Entrevista a Maria Manuela Cruzeiro, revista Indy , 27-11-1998.)

Diz por sua vez Costa Gomes : «Achei de um ridículo espantoso a decisão de os principais dirigentes do PS se refugiarem no Norte . E parece que o Mário Soares foi um deles. Acho que isso é uma fraqueza que as pessoas têm de vez em quando. Talvez levadas, porque vejo o Mário Soares como uma pessoa corajosa. Mas, nesse momento não foi o mais corajoso. Fugiu do centro onde havia maior actividade revolucionária para um sítio onde julgava que havia paz . Mas era uma paz podre, com laivos de MDLP. » (Entrevista a Maria Manuela Cruzeiro, revista Indy , 27-11-1998. Cf. Costa Gomes. O Último Marechal , ed. cit., p. 363.)

Costa Gomes revela com frontalidade a situação, mas os factos atrás apontados mostram que não se tratou de uma «fuga» e sim da partida para a realização de um plano.

Indo para o Norte, onde o aguardavam o comandante da Região Militar Pires Veloso e Lemos Ferreira, levando os aviões e pilotos de Tancos, e contando com o apoio político, diplomático e financeiro da Grã-Bretanha, gasolina para os aviões e mais armamento, Mário Soares vai com a ideia de que o golpe contra-revolucionário em Lisboa poderá ser derrotado e então ele, a partir do Norte, desencadeará a guerra civil para esmagar a «Comuna de Lisboa».

E, sobre os pilotos que, com os aviões, abandonaram «em bloco» Tancos, e que «constituíam a parte mais importante dos “páras”» e os seus comandos todos, não é de mais lembrar que Costa Gomes lhes atribui grande responsabilidade por abandonarem os «páras» ( Indy, 27-11-1998) que em desespero foram ocupar em Monsanto o EMGFA e prender o seu comandante.

No Norte, os aliados de Soares não eram famosos.

Segundo Melo Antunes, Soares e o PS « aliaram-se ao que de pior havia nas Forças Armadas. Como já se haviam aliado ao Spínola . Numa aliança que se tornou mais evidente depois da vinda dos oficiais do ELP e do MDLP. Que se tornaram nos aliados militares preferenciais do PS.» ( Indy, 27-11-1998).

No Porto (já realizado o encontro com Pires Veloso e Lemos Ferreira) Soares dá, no dia 26, uma conferência de imprensa. Insistindo na sua tese do «contra-golpe» à tentativa de um golpe comunista, afirma que o 25 de Novembro foi (o inventado golpe comunista, claro) « o mais grave atentado à democracia portuguesa desde o 25 de Abril » ( Primeiro de Janeiro , 27-11-1975).

Dois dias depois, num comício realizado também no Porto, acusa: «os responsáveis são em primeiro lugar os dirigentes do PCP» ( Jornal de Notícias , 27-11-1975). Sottomayor Cardia classifica o 25 de Novembro como « uma insurreição comunista para a conquista total do poder e eliminação dos adversários do comunismo » ( O Jornal , 5-12-1975).

Nesse comício destacou-se uma delegação do PC de P(m-l), muito aplaudida segundo o jornal, com um sugestivo cartaz: «Prisão para Cunhal e seus lacaios» ( Comércio do Porto , 27-11-1975).

Vê-se que Soares e o PS se identificavam, quanto aos objectivos do golpe, não com o que veio a ser o golpe e o seu resultado, mas com os fascistas e «laivos de MDLP» como Costa Gomes refere. Com spinolistas e «o pior que havia nas Forças Armadas», como refere Melo Antunes. Com os reaças a ferver para « vir por aí abaixo matar comunistas », como diria dias depois o chefe da rede bombista do MDLP Alpoim Calvão. Ainda com a ideia de liquidar pelas armas a «Comuna de Lisboa».

Uma observação mais para melhor se compreender o alcance das palavras.

Os contra-revolucionários chamaram «Comuna de Lisboa» à eventual conquista insurreccional do poder pelo PCP na grande região de Lisboa. Este nome não foi utilizado por acaso. Foi por analogia com a «Comuna de Paris» de 1871, a qual nas palavras de Marx «era essencialmente um governo da classe operária» (Marx//Engels, Obras Escolhidas em três tomos, Edições «Avante!»-Edições Progresso, Lisboa-Moscovo, 1983, Tomo II, p. 243). Tão-pouco por acaso a analogia da repressão que projectavam para a «Comuna de Lisboa» com a conquista de Paris pelas tropas reaccionárias e o terrível e cruel esmagamento da «Comuna de Paris» com fuzilamentos em massa de dirigentes e da população.



5- A saída da crise político-militar
A preparação e a execução do golpe militar contra-revolucionário de 25 de Novembro realizou-se no quadro complexo e movediço de alianças diversas e contraditórias, de arrumações e desarrumações de forças em movimento, de objectivos políticos e militares diferenciados e incompatíveis no que respeita ao que cada qual pretendia como resultado final do golpe.

Mário Soares e o PS participaram com importante contribuição na formação da grande aliança contra-revolucionária anticomunista e anti-MFA, que conduziu ao golpe. Mas, pela identificação dos seus objectivos e pela sua colaboração estreita e prioritária com as forças mais reaccionárias, estiveram à margem do processo efectivo de preparação do golpe e não conseguiram desencadear o que apelidavam de «contra-golpe», nem conseguiram o seu objectivo de reprimir e ilegalizar violentamente o PCP e o movimento operário.

Muitos anos mais tarde, Soares diz que, logo no dia 26, apoiou e «pareceu-lhe sensata» a célebre declaração de Melo Antunes na televisão: que «os comunistas eram indispensáveis para que se cumprissem as regras do jogo democrático» (Maria João Avillez, Soares. Ditadura e Revolução , ed. cit., p. 489). Fantástica reviravolta, na hora do fracasso da tentativa de desencadear a guerra civil a partir do Norte.

A verdade é que, no 25 de Novembro, Soares, de companhia com a extrema direita, sofreu séria derrota política . Nem a liquidação militar da «Comuna de Lisboa», nem guerra civil, nem ilegalização e repressão do PCP, nem intervenção efectiva na saída política da situação. É pertinente a observação de Melo Antunes de que «não é por acaso que das suas declarações continuam a não constar grandes referências ao 25 de Novembro» ( Indy, 27-11-1998).

Há quem não compreenda como foi possível a surpreendente solução política, que no imediato veio a resultar do golpe. Com a salvaguarda das liberdades e da democracia. Com a formação de um governo em que continuou o PCP. Com a aprovação e promulgação da Constituição pela Assembleia Constituinte.

E entretanto essa solução política era uma possibilidade há muito considerada pelo PCP na sua análise da situação e na sua acção prática. Uma tal saída política do golpe «contra o PCP» resultou da aliança, não negociada, não debatida, não acordada, não explicitada, mas aliança com o PCP, conjuntural e objectivamente existente , de chefes das Forças Armadas, destacados participantes na preparação do golpe e na sua execução, mas defensores da continuação das liberdades e da democracia política.

A aliança, que decidiu da saída política do 25 de Novembro, não foi pois a que Mário Soares indicava como sendo a do «contra-golpe» — «militares moderados, Grupo dos Nove e PS». Não, não foi essa aliança que realizou o 25 de Novembro nem a que interveio na saída política do golpe. No complexo quadro da grande aliança contra-revolucionária, o PS, no 25 de Novembro, acabou por ficar de fora , como atrás anotámos. É Eanes que, citando o «Plano de Operações», o testemunha ( O Independente , 29-4-1994).

De facto, o «Plano de Operações», publicado como anexo em vários livros, e não nos consta tenha sido desmentido, justifica inteiramente essa afirmação.

Embora admitindo poder vir a ser necessário um «plano de acção política com deslocação dos órgãos do poder político para o Norte», o Plano estabelece que «a acção decisiva processar-se-á na Região Militar de Lisboa» «seja ou não» a iniciativa das «forças da ordem».

Elaborado sob a direcção pessoal de Eanes (como Gomes Mota informa e Vasco Lourenço confirma) o Plano permite explicar e compreender muitos dos aspectos mais contraditórios e polémicos do golpe.

O «Plano de Operações» contém, objectivamente, não o plano de um contra-golpe mas de um golpe. Não uma acção militar para responder a um golpe efectuado ou em curso, mas o plano de um golpe militar, exigindo longa preparação, com o objectivo de pôr fim a uma situação político-militar cuja responsabilidade atribuem ao PCP.

O Plano é concebido como um golpe à escala nacional e com plano de operações em todas as regiões. Faz um balanço das «unidades favoráveis» e «unidades não seguras» indicando as operações militares do golpe decorrentes da situação avaliada em cada caso.

Aponta os termos concretos da intervenção tanto das unidades das Regiões Militares do Norte, do Centro, do Sul e de Lisboa, como dos partidos que apoiam o golpe.

O Plano, embora admitindo que o momento da execução possa ter de ser determinado por circunstâncias não previstas, «está elaborado para a hipótese da iniciativa ser das forças da ordem» (hipótese 2ª) e vai ao ponto de indicar a altura do dia para o começo das operações de tais ou tais unidades.

O Plano, nas alternativas que coloca em muitos casos ao desenvolvimento das operações, contém uma avaliação de incertezas e contradições, que reflectem e correspondem às contradições do próprio golpe.

Por um lado, constitui um elemento do processo geral da contra-revolução no caminho para o fim da dinâmica revolucionária, para a efectiva dissolução do MFA, para o restabelecimento da hierarquia militar controlada pelas forças de direita.

Por outro lado, o seu resultado imediato não foi a repressão ao PCP e ao movimento operário e a instauração de uma nova ditadura, como queriam, e não estiveram longe de conseguir, os protagonistas e apoiantes fascistas e fascizantes, mas a continuação (com os comunistas e com um forte movimento sindical de classe) de um regime democrático.

Os principais dirigentes dos partidos que tinham participado e apoiado a realização do golpe evitaram até hoje dar sobre isso uma apreciação frontal. Deixaram isso para o Jardim e para os bombistas.

Pouco conformado com a saída política, Galvão de Melo (em 8 de Dezembro), brandindo a moca, apelava para que os comunistas fossem lançados ao mar.

Alberto João Jardim diria mais tarde que «o problema foi que as Forças Armadas voltaram a falhar por deixarem incompleta a missão patriótica, em que se envolveram a 25 de Novembro. Passou-se uma esponja sobre os crimes que vinham sendo cometidos desde o 25 de Abril » « mantiveram uma Assembleia Constituinte eleita em condições de total falta de imparcialidade e liberdade para vários partidos políticos, o que deu a borrada ainda hoje em vigor, quando deviam ter dissolvido essa Assembleia e, então sim, isso feito, realizar eleições verdadeiramente livres» ( O Diabo , 4-4-1994).

O chefe do movimento terrorista Maria da Fonte responsável por numerosos assaltos, atentados, destruições de instalações do PCP, lamentando não ter vencido o «Plano» gizado para liquidar fisicamente o PCP, referirá o golpe realizado como «aquele 25 de Novembro», «o pudico golpe militar de Novembro de 1975», que quis «evitar» que a intervenção dos civis na execução do «Plano» «pudesse resultar em algumas centenas de mortos» (Paradela de Abreu, ob. cit., pp. 153 e 154). Que importância teria isso?

Joaquim Ferreira Torres, destacado activista do MDLP e contratador do mercenário Ramiro Moreira, considerou o 25 de Novembro « uma traição » ( ob. cit. , p. 188).

Também o cónego Melo ficou manifestamente desiludido. Tanto empenho, tanta mobilização das populações arregimentadas pela Igreja e pelos padres, tantos assaltos e destruições de Centros de Trabalho do PCP, tantas bombas, tantos atentados — alguns dos quais até tem sido difícil manter impunes — e afinal um tal resultado: liberdades, regime democrático, aprovação da Constituição. Desapontamento profundo. Não sabe como explicar mas explica: « O 25 de Novembro foi da total responsabilidade dos marxistas […] foi uma luta de marxistas » (entrevista ao Diário do Minho/Rádio Renascença , 13-3-1999). Só faltava mais esta, não é verdade?

Como podiam fascistas e fascizantes, militares radicais, bombistas do MDLP, do Maria da Fonte e do ELP, como podiam PS, PPD e CDS aceitar que a saída política de um golpe contra-revolucionário anti-PCP fosse a continuação e retomada de funções de um governo com a continuação da participação do PCP, com um ministro e seis secretários de Estado?

Não podiam aceitar e não se deram por vencidos. Voltaram à carga no imediato numa ressaca que, como veremos, teve como objectivos imediatos fundamentais inverter a situação, impedir a aprovação e promulgação da Constituição pela Assembleia Constituinte e assegurar a efectiva tomada do poder pela contra-revolução.

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Este artigo encontra-se em http://resistir.info

04 Novembro 2007

HAJA MEMÓRIA



HAJA MEMÓRIA

1931

O estudante Branco é morto pela PSP, durante uma manifestação no Porto;

1932

Armando Ramos, jovem, é morto em consequência de espancamentos; Aurélio Dias, fragateiro, é morto após 30 dias de tortura; Alfredo Ruas, é assassinado a tiro durante uma manifestação em Lisboa;

1934, 18 de Janeiro

Américo Gomes, operário, morre em Peniche após dois meses de tortura; Manuel Vieira Tomé, sindicalista ferroviário morre durante a tortura em consequência da repressão da greve; Júlio Pinto, operário vidreiro, morto à pancada; a PSP mata um operário conserveiro durante a repressão de uma greve em Setúbal;

1935

Ferreira de Abreu, dirigente da organização juvenil do PCP, morre no hospital após ter sido espancado na sede da PIDE (então PVDE);

1936

Francisco Cruz, operário da Marinha Grande, morre na Fortaleza de Angra do Heroísmo, vítima de maus tratos, é deportado do 18 de Janeiro de 1934; Manuel Pestana Garcez, trabalhador, é morto durante a tortura;

1937

Ernesto Faustino, operário; José Lopes, operário anarquista, morre durante a tortura, sendo um dos presos da onda de repressão que se seguiu ao atentado a Salazar; Manuel Salgueiro Valente, tenente-coronel, morre em condições suspeitas no forte de Caxias; Augusto Costa, operário da Marinha Grande, Rafael Tobias Pinto da Silva, de Lisboa, Francisco Domingues Quintas, de Gaia, Francisco Manuel Pereira, marinheiro de Lisboa, Pedro Matos Filipe, de Almada e Cândido Alves Barja, marinheiro, de Castro Verde, morrem no espaço de quatro dias no Tarrafal, vítimas das febres e dos maus tratos; Augusto Almeida Martins, operário, é assassinado na sede da PIDE (PVDE) durante a tortura ; Abílio Augusto Belchior, operário do Porto, morre no Tarrafal, vítima das febres e dos maus tratos;

1938

António Mano Fernandes, estudante de Coimbra, morre no Forte de Peniche, por lhe ter sido recusada assistência médica, sofria de doença cardíaca; Rui Ricardo da Silva, operário do Arsenal, morre no Aljube, devido a tuberculose contraída em consequência de espancamento perpetrado por seis agentes da Pide durante oito horas; Arnaldo Simões Januário, dirigente anarco-sindicalista, morre no campo do Tarrafal, vítima de maus tratos; Francisco Esteves, operário torneiro de Lisboa, morre na tortura na sede da PIDE; Alfredo Caldeira, pintor, dirigente do PCP, morre no Tarrafal após lenta agonia sem assistência médica;

1939

Fernando Alcobia, morre no Tarrafal, vítima de doença e de maus tratos;

1940

Jaime Fonseca de Sousa, morre no Tarrafal, vítima de maus tratos; Albino Coelho, morre também no Tarrafal; Mário Castelhano, dirigente anarco-sindicalista, morre sem assistência médica no Tarrafal;

1941

Jacinto Faria Vilaça, Casimiro Ferreira; Albino de Carvalho; António Guedes Oliveira e Silva; Ernesto José Ribeiro, operário, e José Lopes Dinis morrem no Tarrafal;

1942

Henrique Domingues Fernandes morre no Tarrafal; Carlos Ferreira Soares, médico, é assassinado no seu consultório com rajadas de metralhadora, os agentes assassinos alegam legítima defesa (?!); Bento António Gonçalves, secretário-geral do PCP, morre no Tarrafal; Damásio Martins Pereira, fragateiro, morre no Tarrafal; Fernando Óscar Gaspar, morre tuberculoso no regresso da deportação; António de Jesus Branco morre no Tarrafal;

1943

Rosa Morgado, camponesa do Ameal (Águeda), e os seus filhos, António, Júlio e Constantina, são mortos a tiro pela GNR; Paulo José Dias morre tuberculoso no Tarrafal; Joaquim Montes morre no Tarrafal com febre biliosa; José Manuel Alves dos Reis morre no Tarrafal; Américo Lourenço Nunes, operário, morre em consequência de espancamento perpetrado durante a repressão da greve de Agosto na região de Lisboa; Francisco do Nascimento Gomes, do Porto, morre no Tarrafal; Francisco dos Reis Gomes, operário da Carris do Porto, é morto durante a tortura;

1944

General José Garcia Godinho morre no Forte da Trafaria, por lhe ser recusado internamento hospitalar; Francisco Ferreira Marques, de Lisboa, militante do PCP, em consequência de espancamento e após mês e meio de incomunicabilidade; Edmundo Gonçalves morre tuberculoso no Tarrafal; assassinados a tiro de metralhadora uma mulher e uma criança, durante a repressão da GNR sobre os camponeses rendeiros da herdade da Goucha (Benavente), mais 40 camponeses são feridos a tiro;

1945

Manuel Augusto da Costa morre no Tarrafal; Germano Vidigal, operário, assassinado com esmagamento dos testículos, depois de três dias de tortura no posto da GNR de Montemor-o-Novo; Alfredo Dinis (Alex), operário e dirigente do PCP, é assassinado a tiro na estrada de Bucelas; José António Companheiro, operário, de Borba, morre de tuberculose em consequência dos maus tratos na prisão;

1946

Manuel Simões Júnior, operário corticeiro, morre de tuberculose após doze anos de prisão e de deportação; Joaquim Correia, operário litógrafo do Porto, é morto por espancamento após quinze meses de prisão;

1947

José Patuleia, assalariado rural de Vila Viçosa, morre durante a tortura na sede da PIDE;

1948

António Lopes de Almeida, operário da Marinha Grande, é morto durante a tortura; Artur de Oliveira morre no Tarrafal; Joaquim Marreiros, marinheiro da Armada, morre no Tarrafal após doze anos de deportação; António Guerra, operário da Marinha Grande, preso desde 18 de Janeiro de 1934, morre quase cego e após doença prolongada;

1950

Militão Bessa Ribeiro, operário e dirigente do PCP, morre na Penitenciária de Lisboa, durante uma greve de fome e após nove meses de incomunicabilidade; José Moreira, operário, assassinado na tortura na sede da PIDE, dois dias após a prisão, o corpo é lançado por uma janela do quarto andar para simular suicídio; Venceslau Ferreira morre em Lisboa após tortura; Alfredo Dias Lima, assalariado rural, é assassinado a tiro pela GNR durante uma manifestação em Alpiarça;

1951

Gervásio da Costa, operário de Fafe, morre vítima de maus tratos na p risão;

1954

Catarina Eufémia, assalariada rural, assassinada a tiro em Baleizão, durante uma greve, grávida e com uma filha nos braços;

1957

Joaquim Lemos Oliveira, barbeiro de Fafe, morre na sede da PIDE no Porto após quinze dias de tortura; Manuel da Silva Júnior, de Viana do Castelo, é morto durante a tortura na sede da PIDE no Porto, sendo o corpo, irreconhecível, enterrado às escondidas num cemitério do Porto; José Centeio, assalariado rural de Alpiarça, é assassinado pela PIDE;

1958

José Adelino dos Santos, assalariado rural, é assassinado a tiro pela GNR, durante uma manifestação em Montemor-o-Novo, vários outros trabalhadores são feridos a tiro; Raul Alves, operário da Póvoa de Santa Iria, após quinze dias de tortura, é lançado por uma janela do quarto andar da sede da PIDE, à sua morte assiste a esposa do embaixador do Brasil;

1961

Cândido Martins Capilé, operário corticeiro, é assassinado a tiro pela GNR durante uma manifestação em Almada; José Dias Coelho, escultor e militante do PCP, é assassinado à queima-roupa numa rua de Lisboa;

1962

António Graciano Adângio e Francisco Madeira, mineiros em Aljustrel, são assassinados a tiro pela GNR; Estêvão Giro, operário de Alcochete, é assassinado a tiro pela PSP durante a manifestação do 1º de Maio em Lisboa;

1963

Agostinho Fineza, operário tipógrafo do Funchal, é assassinado pela PSP, sob a indicação da PIDE, durante uma manifestação em Lisboa;

1964

Francisco Brito, desertor da guerra colonial, é assassinado em Loulé pela GNR; David Almeida Reis, trabalhador, é assassinado por agentes da PIDE durante uma manifestação em Lisboa;

1965

General Humberto Delgado e a sua secretária, Arajaryr Campos, são assassinados a tiro em Vila Nueva del Fresno (Espanha), os assassinos são o inspector da PIDE Rosa Casaco, o subinspector Agostinho Tienza e o agente Casimiro Monteiro;

1967

Manuel Agostinho Góis, trabalhador agrícola de Cuba, morre vítima de tortura na PIDE;

1968

Luís António Firmino, trabalhador de Montemor, morre em Caxias, vítima de maus tratos; Herculano Augusto, trabalhador rural, é morto à pancada no posto da PSP de Lamego por condenar publicamente a guerra colonial; Daniel Teixeira, estudante, morre no Forte de Caxias, em situação de incomunicabilidade, depois de agonizar durante uma noite sem assistência;

1969

Eduardo Mondlane, dirigente da Frelimo, é assassinado através de um atentado organizado pela PIDE;

1972

José António Leitão Ribeiro Santos, estudante de Direito em Lisboa e militante do MRPP, é assassinado a tiro durante uma reunião de apoio à luta do povo vietnamita e contra a repressão, o seu assassino, o agente da PIDE Coelha da Rocha, viria a escapar-se na "fuga-libertação" de Alcoentre, em Junho de 1975;

1973

Amílcar Cabral, dirigente da luta de libertação da Guiné e Cabo Verde, é assassinado por um bando mercenário a soldo da PIDE, chefiado por Alpoim Galvão;

1974, 25 de Abril

Fernando Carvalho Gesteira, de Montalegre, José James Barneto, de Vendas Novas, Fernando Barreiros dos Reis, soldado de Lisboa, e José Guilherme Rego Arruda, estudante dos Açores, são assassinados a tiro pelos pides acoitados na sua sede na Rua António Maria Cardoso, são ainda feridas duas dezenas de pessoas.

A PIDE acaba como começou, assassinando. Aqui não ficam contabilizadas as i númeras vítimas anónimas da PIDE, GNR e PSP em outros locais de repressão.

Mais ainda

Podemos referir, duas centenas de homens, mulheres e crianças massacradas a tiro de canhão durante o bombardeamento da cidade do Porto, ordenada pelo coronel Passos e Sousa, na repressão da revolta de 3 de Fevereiro de 1927. Dezenas de mortos na repressão da revolta de 7 de Fevereiro de 1927 em Lisboa, vários deles assassinados por um pelotão de fuzilamento, à ordens do capitão Jorge Botelho Moniz, no Jardim Zoológico.

Dezenas de mortos na repressão da revolta da Madeira, em Abril de 1931, ou outras tantas dezenas na repressão da revolta de 26 de Agosto de 1931.

Um número indeterminado de mortos na deportação na Guiné, Timor, Angra e no Cunene.

Um número indeterminado de mortos devido à intervenção da força fascista dos "Viriatos" na guerra civil de Espanha e a entrega de fugitivos aos pelotões de fuzilamento franquistas.

Dezenas de mortos em São Tomé, na repressão ordenada pelo governador Carlos Gorgulho sobre os trabalhadores que recusaram o trabalho forçado, em Fevereiro de 1953.

Muitos milhares de mortos durante as guerras coloniais, vítimas do Exército, da PIDE, da OPVDC.

(Elementos recolhidos na CRÓNICA DO AUDIO VISUAL)

24 Outubro 2007

Adriano - 65º Aniversário seu nascimento

22 Outubro 2007

1 9 7 4 - 1975 - 1976



1974


22 de Fevereiro
Publicação do livro Portugal e o Futuro do General António de Spínola, em que este defende que a solução para a guerra colonial deverá ser política e não militar.



5 de Março
Nova reunião da Comissão Coordenadora do MFA. É lido e decidido pôr a circular no seio do Movimento dos Capitães o primeiro documento do Movimento contra o regime e a Guerra Colonial: intitulava-se "Os Militares, as Forças Armadas e a Nação" e foi elaborado por Melo Antunes



14 de Março
O Governo demite os Generais Spínola e Costa Gomes dos cargos de Chefe e Vice-Chefe de Estado Maior General das Forças Armadas, alegando falta de comparência na cerimónia de solidariedade com o regime, levada a cabo pelos três ramos das Forças Armadas. Essa cerimónia de solidariedade será ironicamente baptizada nos meios ligados à oposição ao regime como "Brigada do Reumático" nome pelo qual ainda hoje é muitas vezes referenciada. A demissão dos dois generais virá a ser determinante na aceleração das operações militares contra o regime.


16 de Março
Tentativa de golpe militar contra o regime. Só o Regimento de Infantaria 5 das Caldas da Rainha marcha sobre Lisboa. O golpe falhou. São presos cerca de 200 militares.



24 de Março
Última reunião clandestina da Comissão Coordenadora do MFA, na qual foi decidido o derrube do regime e o golpe militar.



23 de Abril
Otelo Saraiva de Carvalho entrega, a capitães mensageiros, sobrescritos fechados contendo as instruções para as acções a desencadear na noite de 24 para 25 e um exemplar do jornal a Época, como identificação, destinada às unidades participantes.



24 de Abril
O jornal República, em breve notícia, chama a atenção dos seus leitores para a emissão do programa Limite dessa noite, na Rádio Renascença .



24 de Abril - 22:00 horas
Otelo Saraiva de Carvalho e outros cinco oficiais ligados ao MFA já estão no Regimento de Engenharia 1 na Pontinha onde, desde a véspera, fora clandestinamente preparado o Posto de Comando do Movimento. Será ele a comandar as operações militares contra o regime.


24 de Abril - 22:55 horas
A transmissão da canção " E depois do Adeus ", interpretada por Paulo de Carvalho, aos microfones dos Emissores Associados de Lisboa, marca o ínicio das operações militares contra o regime.



25 de Abril - 00:20 horas
A transmissão da canção " Grândola Vila Morena " de José Afonso, no programa Limite da Rádio Renancença, é a senha escolhida pelo MFA, como sinal confirmativo de que as operações militares estão em marcha e são irreversíveis.



25 de Abril - Das 00:30 às 16:00 horas
Ocupação de pontos estratégicos considerados fundamentais ( RTP, Emissora Nacional, Rádio Clube Português, Aeroporto de Lisboa, Quartel General, Estado Maior do Exército, Ministério do Exército, Banco de Portugal e Marconi).

Primeiro Comunicado do MFA difundido pelo Rádio Clube Português

Forças da Escola Prática de Cavalaria de Santarém estacionam no Terreiro do Paço.

As forças paramilitares leais ao regime começam a render-se: a Legião Portuguesa é a primeira.

Desde a primeira hora o povo vem para a rua para expressar a sua alegria.

Início do cerco ao Quartel do Carmo, chefiado por Salgueiro Maia, entre milhares de pessoas que apoiavam os militares revoltosos. Dentro do Quartel estão refugiados Marcelo Caetano e mais dois ministros do seu Gabinete.



25 de Abril - 16:30 horas
Expirado o prazo inicial para a rendição anunciado por megafone pelo Capitão Salgueiro Maia, e após algumas diligências feitas por mediadores civis, Marcelo Caetano faz saber que está disposto a render-se e pede a comparência no Quartel do Carmo de um oficial do MFA de patente não inferior a coronel.



25 de Abril - 17:45 horas
Spínola, mandatado pelo MFA entra no Quartel do Carmo para negociar a rendição do Governo.

O Quartel do Carmo hasteia a bandeira branca.



25 de Abril - 19:30 horas
Rendição de Marcelo Caetano. A chaimite BULA entra no Quartel para retirar o ex-presidente do Conselho e os ministros que o acompanhavam, levando-os, à guarda do MFA para o Posto de Comando do Movimento no Quartel da Pontinha.



25 de Abril - 20:00 horas
Disparos de elementos da PIDE/DGS sobre manifestantes que começavam a afluir à sede daquela polícia na Rua António Maria Cardoso, fazem quatro mortos e 45 feridos.



26 de Abril
A PIDE/DGS rende-se após conversa telefónica entre o General Spínola e Silva Pais director daquela corporação.

Apresentação da Junta de Salvação Nacional ao país, perante as câmaras da RTP.

Por ordem do MFA, Marcelo Caetano, Américo Tomás, César Moreira Baptista e outros elementos afectos ao antigo regime, são enviados para a Madeira.

O General Spínola é designado Presidente da República.

Libertação dos presos políticos de Caxias e Peniche.



27 de Abril
Apresentação do Programa do Movimento das Forças Armadas.



29 a 30 de Abril
Regresso dos líderes do Partido Socialista (Mário Soares) e do Partido Comunista Português (Álvaro Cunhal).



1 de Maio
Manifestação do 1º de Maio, em Lisboa, congrega cerca de 500.000 pessoas. Outras grandes manifestações decorreram nas principais cidades do país.



4 de Maio
O MRPP organiza a primeira manifestação de boicote ao embarque de soldados para as colónias. A Junta de Salvação Nacional previra a necessidade de envio de alguns batalhões de militares para substituirem a tropa portuguesa ainda em território africano e cujo período de mobilização já terminara. Pensava-se também que seria importante manter as Forças Armadas Portuguesas em África até final das negociações com os Movimentos de Libertação Africanos, com vista à independência dos territórios.



16 de Maio
Tomada de posse do Iº Governo Provisório, presidido por Adelino da Palma Carlos.

Do I Governo fazem parte, entre outros, Mário Soares, Álvaro Cunhal e Sá Carneiro.



20 de Maio
Américo Tomás e Marcelo Caetano, com o conhecimento da JSN mas não do Governo, partem para o exílio no Brasil.



25 de Maio
Início das conversações com o PAIGC.



26 de Maio
É fixado o primeiro Salário Mínimo Nacional em 3300$00.



Maio / Junho
Grandes conflitos laborais e lutas de trabalhadores começam a surgir em algumas das grandes empresas portuguesas LISNAVE, TIMEX, CTT.

Inicia-se um grande movimento popular de ocupações de casas desabitadas que vai prolongar-se por vários meses. A Junta de Salvação Nacional legaliza, em 19 de Maio, as ocupações verificadas e proíbe novas ocupações.



6 de Junho
Conversações preliminares com a FRELIMO, em Lusaka, com vista à independência de Moçambique.



8 de Julho
É criado o COPCON, chefiado por Otelo Saraiva de Carvalho



9 de Julho
O Primeiro Ministro Palma Carlos pede a demissão do cargo por alegadamente não ter condicões políticas para governar numa clara alusão ao peso da influência do MFA. Com ele solidarizam-se alguns ministros do seu Gabinete entre eles Francisco Sá Carneiro



12 de Julho
Vasco Gonçalves é indigitado por Spínola para o cargo de Primeiro Ministro.



18 de Julho
Tomada de posse do IIº Governo Provisório, presidido por um homem do MFA, o General Vasco Gonçalves.



27 de Julho
Spínola reconhece o direito à independência das colónias africanas.



Julho / Agosto
Greves da MABOR, TAP, SOGANTAL e JORNAL DO COMÉRCIO.



8 de Agosto
Motim de ex-agentes da PIDE/DGS presos na Penitenciária de Lisboa.



28 de Agosto
Promulgação da Lei da Greve.



31 de Agosto
Por despacho conjunto do Ministério da Admnistração Interna e do Ministério do Equipamento Social é criado o SAAL vocacionado para intervir na área da habitação social. No processo SAAL colaboraram então alguns dos arquitectos portugueses hoje internacionalmente reconhecidos, como Siza Vieira e Alves Costa. Ficaram célebres as áreas de intervenção do Barredo no Porto, as de Setúbal e de Évora.



6 de Setembro
Acordos de Lusaka entre a FRELIMO e o Governo Português.



7 de Setembro
Tentativa de tomada de poder pelas forças neo-colonialistas em Lourenço Marques.



9 de Setembro
O Governo Português reconhece a Guiné-Bissau como país independente.



10 de Setembro
Apelo de Spínola à chamada Maioria Silenciosa, numa tentativa de procurar o apoio dos sectores mais conservadores da sociedade portuguesa. Em resposta a este apelo surgem na imprensa, dias mais tarde, notícias que anunciam para dia 28 uma manifestação de apoio a Spínola.



26 de Setembro
António de Spínola e Vasco Gonçalves assistem a uma corrida de toiros no Campo Pequeno. Vasco Gonçalves é apupado por manifestantes conotados com a Maioria Silenciosa.



28 de Setembro
Em resposta à anunciada manifestação da Maioria Silenciosa são organizadas barricadas populares junto às saídas de Lisboa e um pouco por todo o país. No final dessa noite, os militares substituem os civis nas barricadas. Mais de uma centena de pessoas, entre figuras gratas ao regime deposto, quadros da Legião Portuguesa e participantes activos da manifestação abortada da Maioria Silenciosa, são detidas por Forças Militares.



30 de Setembro
Apresentação da demissão do Presidente da República General António de Spínola e nomeação do General Costa Gomes.

Tomada de Posse do III Governo Provisório, chefiado por Vasco Gonçalves.



6 de Outubro
"Um dia de trabalho para a Nação" proposto pelo Primeiro Ministro. Um domingo é transformado em dia útil de trabalho oferecido gratuitamente pelos trabalhadores ao país. A adesão é significativa e o resultado financeiro desta campanha será dias mais tarde estimado pelas entidades oficiais competentes em cerca de 13000 contos.



27 de Outubro
O Governo anuncia as Campanhas de Dinamização Cultural, empreendidas pela 5ª Divisão do EMGFA com o objectivo de "cumprir integralmente o programa do MFA e colocar as Forças Armadas ao serviço de um projecto de desenvolvimento do Povo Português".



11 de Novembro
O Ministério da Educação e Cultura institui o Serviço Cívico Estudantil, ano vestibular antes da entrada definitiva no ensino superior e que mobilizou milhares estudantes para brigadas de alfabetização e de educação sanitária junto das populações.



7 de Dezembro
Por decisão do Governo é decidido o pagamento do 13º mês aos pensionistas do Estado.



9 de Dezembro
Tem início o recenceamento eleitoral com vista à realização das primeiras eleições em liberdade.



13 de Dezembro
Os Estados Unidos concedem ao governo português um importante empréstimo financeiro no âmbito de um Plano de Ajuda Económica a Portugal.





1975



15 de Janeiro
Acordos de Alvor entre o Governo Português e os Movimentos de Libertação Angolanos. Fixa-se a data da independência: 11/11/75.



28 de Janeiro
Militantes de vários grupos de esquerda cercam o Palácio de Cristal no Porto, local onde decorre o Congresso do CDS. O MFA proíbe todas as manifestações durante o período em que se desenvolverão as manobras da NATO em Lisboa. O desembarque previsto para o dia 31 não chega a realizar-se.



2 de Fevereiro
Trabalhadores rurais ocupam terras abandonadas na herdade do Picote, em Montemor-o-Novo. Início da Reforma Agrária.



7 de Fevereiro
Grande manifestação operária em Lisboa contra o desemprego e contra a NATO.



21 de Fevereiro
Apresentação doPrograma Económico de Transição, elaborado por uma equipa chefiada pelo Major Ernesto Melo Antunes, com vista à recuperação económica do país.




22 de Fevereiro
O MFA reforça os seus poderes políticos chamando a si um direito de veto relativo a decisões políticas fundamentais.



7 e 8 de Março
Confrontações em Setúbal entre grupos políticos. A intervenção policial provoca dois mortos e obriga à intervenção do COPCON.



11 de Março
Divisões profundas entre oficiais do MFA. A ala spinolista é levada a tentar um golpe de estado. Insurreição na Base Aérea de Tancos e ataque aéreo ao Quartel do RAL1 . Fuga para Espanha do General Spínola e outros oficiais. Reforço da capacidade de intervenção do COPCON chefiado por Otelo Saraiva de Carvalho.



12 de Março
São extintos a Junta de Salvação Nacional e o Conselho de Estado e em sua substituição é criado o Conselho da Revolução. O Governo dá início à execução de um grande plano de nacionalizações (Banca, Seguros, Transportes etc...).



26 de Março
Tomada de Posse do IV Governo Provisório, chefiado por Vasco Gonçalves.



11 de Abril
Plataforma de acordo MFA/Partidos assinada por CDS, FSP, MDP, PCP,PPD, PS. O acordo visava o reconhecimento, por parte dos partidos, da necessidade de se manter a influência do MFA na vida política do país por um período de transição de três a cinco anos o qual terminaria por intermédio de uma revisão constitucional.



25 de Abril
Eleições para a Assembleia Constituinte com uma taxa de participação de 91,7%. Resultados dos Partidos com representação parlamentar: PS 37,9%; PPD 26,4%; PCP 12,5%; CDS 7,6%; MDP 4,1%; UDP 0,7%.



19 de Maio
Início do chamado Caso República . Raul Rêgo é afastado da direcção do jornal pelos trabalhadores, acusado de ter tornado o República no órgão oficioso do Partido Socialista.



25 de Maio
Ocupação pelos trabalhadores das instalações da Rádio Renascença, propriedade do Episcopado.



6 de Junho
Em Ponta Delgada realiza-se a primeira manifestação pública da Frente de Libertação dos Açores (FLA). Este movimento sem grande expressão e peso político reivindicava a autodeterminação dos Açores.



25 de Junho
Independência de Moçambique.



Julho
Reagindo ao curso dos acontecimentos e à situação criada no jornal República o Partido Socialista desencadeia manifestações de massas - a maior das quais foi a da Fonte Luminosa, abandonando o Governo em 16 de Julho. O Partido Popular Democrático segue-lhe o exemplo. Iniciam-se as diligências para a formação de novo Governo.



5 de Julho
Independência de Cabo-Verde.



8 de Julho
MFA divulga o Documento "Aliança POVO/MFA. Para a construção da sociedade socialista em Portugal."



12 de Julho
Independência de S. Tomé e Príncipe.



13 de Julho
Assalto à sede do PCP em Rio Maior. Têm aqui início uma série de acções violentas contra as sedes de partidos e organizações políticas de esquerda, registadas por todo o país mas com maior intensidade no Norte e Centro. Esta onda de violência conotada com as forças conservadoras ficou conhecida por Verão Quente.



27 de Julho
Fuga de 88 agentes da ex-PIDE/DGS da prisão de Alcoentre.



30 de Julho
É criado no Conselho da Revolução o Triunvirato que passa a orientá-lo. Constituem-no Vasco Gonçalves, Costa Gomes e Otelo.



7 de Agosto
É divulgado o Documento Melo Antunes, apoiado pelo Grupo dos Nove, um grupo de militares que representava a facção moderada do MFA, e que se opõem às teses políticas do Documento Guia Povo/MFA apresentado em 8 de Julho.



8 de Agosto
Tomada de posse do V Governo Provisório, chefiado por Vasco Gonçalves.



10 de Agosto
Melo Antunes e apoiantes são afastados do Conselho da Revolução.



12 de Agosto
Aparecimento do "Documento do COPCON", em contraposição ao "Documento dos Nove", e reforçando a ideia de ser atribuído um papel político relevante às Assembleias Populares (democracia de base).



30 de Agosto
Vasco Gonçalves é demitido do cargo de Primeiro Ministro. Iniciam-se as negociações para a formação do VI Governo Provisório, PS/PPD/PC.



10 de Setembro
Desvio de 1000 espingardas automáticas G3 do DGM 6 em Beirolas.



11 de Setembro
Manifestação dos SUV no Porto, numa tentativa de criar no seio das Forças Armadas uma zona de influência adepta do Poder Popular de Base como advogavam alguns partidos da chamada esquerda revolucionária.



19 de Setembro
Tomada de posse do VI Governo Provisório, chefiado por Pinheiro de Azevedo.



21 e 22 de Setembro
Agudiza-se a luta política nas ruas: manifestação dos Deficientes das Forças Armadas com ocupação de portagens de acesso a Lisboa e tentativa de sequestro do Governo. Prosseguem as nacionalizações: SETENAVE e Estaleiros de Viana do Castelo.



25 de Setembro
Nova manifestação dos SUV em Lisboa. Na intenção de retirar poderes ao COPCON o Governo cria o AMI - Agrupamento Militar de Intervenção.



26 de Setembro
O Governo decide retirar ao COPCON "os poderes de intervenção para restabelecimento da ordem pública".



27 de Setembro
Manifestantes de partidos de esquerda assaltam e destroem as instalações da Embaixada de Espanha como medida de protesto contra a execução pelo garrote de cinco nacionalistas bascos, decidida pelo governo ditatorial do Generalíssimo Franco.



15 de Outubro
O Governo manda selar as instalações da Rádio Renascença, ocupada desde Maio pelos trabalhadores. Mas a ocupação mantém-se.



7 de Novembro
Por ordem do Governo, o recém criado AMI, faz explodir os emissores da Rádio Renascença.
Confrontos violentos na região de Rio Maior entre representantes das UCP's e Cooperativas Agrícolas da Zona de Intervenção da Reforma Agrária (ligadas ao sector do trabalhadores rurais) e representantes da CAP - Confederação de Agricultores Portugueses, instituição ligada aos interesses dos proprietários agrícolas.



11 de Novembro
Independência de Angola.



12 de Novembro
Manifestação de trabalhadores da construção civil cerca o Palácio de S.Bento sequestrando os deputados.



15 de Novembro
Juramento de bandeira no RALIS - os soldados quebram as normas militares que regulamentam os juramentos de bandeira e fazem-no de punho fechado.



20 de Novembro
O Conselho da Revolução decide substituir Otelo Saraiva de Carvalho por Vasco Lourenço no comando da Região Militar de Lisboa.
O Governo anuncia a suspensão das suas actividades alegando "falta de condições de segurança para exercício do governo do país".



Manhã de 25 de Novembro
Na sequência de uma decisão do General Morais da Silva, CEMFA, que dias antes tinha mandado passar à disponibilidade cerca de 1000 camaradas de armas de Tancos, paraquedistas da Base Escola de Tancos ocupam o Comando da Região Aérea de Monsanto e seis bases aéreas. Detêm o general Pinho Freire e exigem a demissão de Morais da Silva. Este acto é considerado pelos militares ligados ao Grupo dos Nove como o indício de que poderia estar em preparação um golpe de estado vindo de sectores mais radicais, da esquerda. Esses militares apoiados pelos partidos políticos moderados PS e PPD, depois do Presidente da República, General Francisco da Costa Gomes ter obtido por parte do PCP a confirmação de que não convocaria os seus militantes e apoiantes para qualquer acção de rua, decidem então intervir militarmente para controlar inequivocamente o destino político do país. Assim:



Tarde de 25 de Novembro
Elementos do Regimento de Comandos da Amadora cercam o Comando da Região Aérea de Monsanto.



Noite de 25 de Novembro
O Presidente da República decreta o Estado de Sítio na Região de Lisboa. Militares afectos ao governo, da linha do Grupo dos Nove, controlam a situação.
Prisão dos militares revoltosos que tinham ocupado a Base de Monsanto.



26 de Novembro
Comandos da Amadora atacam o Regimento da Polícia Militar, unidade militar tida como próxima das forças políticas de esquerda revolucionária. Após a rendição da PM, há vítimas mortais de ambos os lados.
Prisões dos militares revoltosos.



27 de Novembro
Os Generais Carlos Fabião e Otelo Saraiva de Carvalho são destituídos, respectivamente, dos cargos de Chefe de Estado Maior do Exército e de Comandante do COPCON.
O General António Ramalho Eanes é o novo Chefe de Estado Maior do Exército.
Por decisão do Conselho de Ministros a Rádio Renascença é devolvida à Igreja Católica.



28 de Novembro
O VI Governo Provisório retoma funções. O Conselho de Ministros promete o direito de reserva aos donos de terras expropriadas.



7 de Dezembro
A Indonésia invade e ocupa o território de Timor.






1976




1 de Janeiro
A PSP intervém, junto à prisão de Custóias, para dispersar a manifestação de solidariedade com os militares presos após o 25 de Novembro de que resultam três mortos e seis feridos.



3 de Janeiro
A imprensa francesa denuncia que no seguimento da invasão de Timor pela Indonésia já teriam morrido cerca de 60000 timorenses.



19 de Janeiro
Prisão de Otelo Saraiva de Carvalho após a divulgação do Relatório Preliminar dos acontecimentos de 25 de Novembro. Alegadamente Otelo estaria implicado no possível golpe militar de esquerda. Será libertado a 3 de Março sem que as acusações se confirmassem.



22 de Janeiro
O jornal República é devolvido à anterior direcção.



23 de Janeiro
Lock-out na Fábrica Timex.




26 de Janeiro
Revisão do Pacto MFA/Partidos. Assinam o CDS o MDP/CDE, o PPD e o PS.



29 de Janeiro
Operários da Timex entram de novo em greve.



Ainda em Janeiro
Tem início uma série de atentados bombistas reivindicados pela extrema direita portuguesa, ELP e MDLP que se prolongará por vários meses e cujos alvos são instituições e personalidades ligados a sectores da esquerda. O julgamento dessas acções ainda hoje decorre sendo conhecido como Caso da Rede Bombista.



20 de Fevereiro
Grande manifestação popular em Lisboa pela libertação dos militares presos em consequência dos acontecimentos de 25 de Novembro.



2 de Abril
Aprovação pela Assembleia Constituinte da Constituição da República de 1976.



25 de Abril
Eleições legislativas. Resultados dos Partidos com representação parlamentar: PS 35%; PPD 24%; CDS 15,9%; PCP 14,6%; UDP 1,7%.



27 de Junho
Eleições presidenciais. António Ramalho Eanes é o primeiro Presidente da República constitucionalmente eleito com 61,5% dos votos. Resultados dos outros candidatos mais votados: Otelo Saraiva de Carvalho 16,5%; Pinheiro de Azevedo 14,4%; Octávio Pato 7,5%.



23 de Setembro
Tomada de Posse do I Governo Constitucional, chefiado por Mário Soares.


(Elementos recolhidos no Centro de Documentação 25 de Abril - Universidade de Coimbra)

Papuça




Papuça

Olha enfia a carapuça
mas não compres o velho fato de ananás
o estilo não se empresta e nada tem sentido
a tua falta, meu papuça
Se podes ou não podes tanto faz

Experimenta sair um pouco está bom tempo
na Arrábida para os ninhos meu rapaz
Amanhã é feriado em Paio Pires aguça
o teu ouvido rouco-mouco em aguarrás

A multidão na rua
É Zé!
ouve-se a banda tocando o M. F. A.
Vai o Borges o Pina o Xaimite e a Bibas balouçando
A revolução é pra já

A bota trocada o canta na varanda
De rota batida para Luanda
Só menos um furo no cinto apertado
É já Primavera Amar não é pecado

Na fímbria da saia a lagartixa verde
E um dia alegre à nossa espera, bebe
Estamos na seca a paz é pouca
dorme uma soneca a tia louca

Limpa os sovacos com esse spray
amanhã é dia de dancing day
Põe nessa boca uma chupeta
amanhá é dia de Dona Xepa

José (Zeca) Afonso

Venham Mais Cinco




Venham Mais Cinco

Venham mais cinco
Duma assentada
Que eu pago já
Do branco ou tinto
Se o velho estica
Eu fico por cá

Se tem má pinta
Dá-lhe um apito
E põe-no a andar
De espada à cinta
Já crê que é rei
Dàquém e Dàlém Mar

Não me obriguem
A vir para a rua
Gritar
Que é já tempo
D'embalar a trouxa
E zarpar

A gente ajuda
Havemos de ser mais
Eu bem sei
Mas há quem queira
Deitar abaixo
O que eu levantei

A bucha é dura
Mais dura é a razão
Que a sustem
Só nesta rusga
Não há lugar
Pr'ós filhos da mãe

Não me obriguem
A vir para a rua
Gritar
Que é já tempo
D'embalar a trouxa
E zarpar

Bem me diziam
Bem me avisavam
Como era a lei
Na minha terra
Quem trepa
No coqueiro
É o rei

José (Zeca) Afonso

A Morte Saíu à Rua





José Afonso - Ao Vivo no Coliseu (parte 6/12)
A Morte Saiu à Rua

A morte saiu à rua num dia assim
Naquele lugar sem nome pra qualquer fim
Uma gota rubra sobre a calçada cai
E um rio de sangue dum peito aberto sai

O vento que dá nas canas do canavial
E a foice duma ceifeira de Portugal
E o som da bigorna como um clarim do céu
Vão dizendo em toda a parte o pintor morreu

Teu sangue, Pintor, reclama outra morte igual
Só olho por olho e dente por dente vale
À lei assassina à morte que te matou
Teu corpo pertence à terra que te abraçou

Aqui te afirmamos dente por dente assim
Que um dia rirá melhor quem rirá por fim
Na curva da estrada há covas feitas no chão
E em todas florirão rosas duma nação

José (Zeca) Afonso

Os Vampiros



"Em 29 de Janeiro de 1983 realiza-se o espectáculo no Coliseu com José Afonso já em dificuldades. Participam Octávio Sérgio, António Sérgio, Lopes de Almeida, Durval Moreirinhas, Rui Pato, Fausto, Júlio Pereira, Guilherme Inês, Rui Castro, Rui Júnior, Sérgio Mestre e Janita Salomé. É publicado o duplo álbum Ao Vivo no Coliseu."

José Afonso - Ao Vivo no Coliseu (parte 5/12)
Vampiros

No céu cinzento sob o astro mudo
Batendo as asas Pela noite calada
Vêm em bandos Com pés veludo
Chupar o sangue Fresco da manada

Eles comem tudo Eles comem tudo
Eles comem tudo E não deixam nada [bis]

A toda a parte Chegam os vampiros
Poisam nos prédios Poisam nas calçadas
Trazem no ventre Despojos antigos
Mas nada os prende Às vidas acabadas

Eles comem tudo Eles comem tudo
Eles comem tudo E não deixam nada [bis]

Se alguém se engana com seu ar sisudo
E lhes franqueia As portas à chegada
Eles comem tudo Eles comem tudo
Eles comem tudo E não deixam nada [bis]

No chão do medo Tombam os vencidos
Ouvem-se os gritos Na noite abafada
Jazem nos fossos Vítimas dum credo
E não se esgota O sangue da manada

Eles comem tudo Eles comem tudo
Eles comem tudo E não deixam nada [bis]

São os mordomos Do universo todo
Senhores à força Mandadores sem lei
Enchem as tulhas Bebem vinho novo
Dançam a ronda No pinhal do rei

Eles comem tudo Eles comem tudo
Eles comem tudo E não deixam nada [bis]

Se alguém se engana Com seu ar sisudo
E lhe franqueia As portas à chegada
Eles comem tudo Eles comem tudo
Eles comem tudo E não deixam nada [bis]

Eles comem tudo Eles comem tudo
Eles comem tudo E não deixam nada [bis]

José (Zeca) Afonso

06 Agosto 2007

25 DE ABRIL - ANTECEDENTES


Grândola-Monumento


Na sequência do golpe militar de 28 de Maio de 1926, foi implementado em Portugal um regime autoritário de inspiração fascista. Em 1933 o regime é remodelado, auto-denominando-se Estado Novo e Oliveira Salazar passou a controlar o país, não mais abandonando o poder até 1968, quando este lhe foi retirado por incapacidade, na sequência de uma queda em que sofreu lesões cerebrais. Foi substituído por Marcello Caetano que dirigiu o país até ser deposto no 25 de Abril de 1974.

Sob o governo do Estado Novo, Portugal foi sempre considerado uma ditadura, quer pela oposição, quer pelos observadores estrangeiros quer mesmo pelos próprios dirigentes do regime. Formalmente, existiam eleições, mas estas foram sempre contestadas pela oposição, que sempre acusaram o governo de fraude eleitoral e de desrespeito pelo dever de imparcialidade.

O Estado Novo possuía uma polícia política, a PIDE (Polícia Internacional e de Defesa do Estado), uma evolução da ex-PVDE (Polícia de Vigilância e Defesa do Estado), mais tarde DGS (Direcção-Geral de Segurança), que perseguia os opositores do regime. De acordo com a visão da história dos ideólogos do regime, o país manteve uma política baseada na manutenção das colónias do "Ultramar", ao contrário da maior parte dos países europeus que então desfaziam os seus impérios coloniais. Apesar da contestação nos fóruns mundiais, como na ONU, Portugal manteve uma política de força, tendo sido obrigado, a partir do início dos anos 60, a defender militarmente as colónias contra os grupos independentistas em Angola, Guiné e Moçambique.

Economicamente, o regime manteve uma política de condicionamento industrial que resultava no monopólio do mercado português por parte de alguns grupos industriais e financeiros (a acusação de plutocracia é frequente). O país permaneceu pobre até à década de 1960, o que estimulou a emigração. Notou-se, contudo, um ligeiro desenvolvimento económico a partir desta década.



O Marcelismo e as Relações Internacionais portuguesas nos anos que antecederam o derrube do Estado Novo: o mito do "orgulhosamente sós"


Nos inícios dos anos 1970 o regime autoritário do Estado Novo continuava a pesar sob Portugal. O seu fundador, António Oliveira Salazar, foi destituído em 1968 por incapacidade e veio a falecer em 1970, sendo substituído por Marcelo Caetano na direcção do regime. Qualquer tentativa de reforma política foi impedida pela própria inércia do regime e pelo poder da sua polícia política (PIDE). O regime exilava-se, envelhecido num mundo ocidental em plena efervescência social e intelectual de finais de década de 60, obrigando Portugal a defender pelas forças das armas o Império Português, instalado no imaginário dos ideólogos do regime. Para tal, o país viu-se obrigado a investir grandes esforços numa guerra colonial de pacificação, atitude que contrastava com o resto das potências coloniais que tratavam de assegurar-se da saída do continente africano da forma mais conveniente.

O contexto internacional não era favorável ao regime salazarista/marcelista. Com o auge da Guerra Fria, as nações dos blocos Capitalista e Comunista apoiaram e financiaram as guerrilhas das colónias portuguesas, numa tentativa de as atrair para a influência americana ou soviética. A intransigência do regime e mesmo o desejo de muitos colonos de continuarem sob o domínio português, atrasaram o processo de descolonização por quase 20 anos, no caso de Angola e Moçambique. Ao contrário de outras Potências Coloniais Europeias, Portugal mantinha laços fortes e duradoros com as suas colónias africanas. Para muitos portugueses um Império Colonial era necessário para um poder e influência contínuos. Contrastando com Inglaterra e França, os colonizadores portugueses casaram e constituíram família entre os colonos nativos. Apesar das constantes objecções em forúns nacionais, como a ONU, Portugal manteve as suas colónias como parte integral de Portugal, sentindo-se portanto obrigado a defendê-las militarmente de grupos armados de influência comunista, particularmente após a anexação unilateral e forçada dos inclaves portugueses de Goa, Damão e Diu, em 1961. Em quase todas as colónias portuguesas africanas – Moçambique, Angola, Guiné, São Tomé e Príncipe e Cabo Verde – surgiram movimentos independentistas, que acabaram por se manifestar sob a forma de guerrilhas armadas. Excepto no caso da Guiné, estas guerrilhas foram facilmente contidas pelas forças portuguesas, apesar dos diversos embargos ao armamento militar fornecido a Portugal. No entanto, os vários conflitos forçaram Salazar e o seu sucessor Caetano a gastar uma maior parte do orçamento de Estado na administração colonial e despesas militares, sendo que cedo Portugal viu-se um pouco isolado do resto do Mundo Após a ascensão de Caetano ao poder, a guerra colonial tornou-se num forte motivo de discussão e num assunto muito focado por parte das forças anti-regime. Muitos estudantes e manifestantes contra a guerra foram forçados a abandonar o país para escapar à prisão e tortura. Economicamente, o regime mantinha a sua política de Corporativismo, o que resultou na concentração da economia portuguesa nas mãos de meia dúzia de industriais. No entanto, a economia crescia fortemente, especialmente após 1950 e Portugal foi mesmo co-fundador da EFTA, OCDE e NATO. A Administração das colónias custava a Portugal um aumento percentual anual no seu orçamento e tal contribuíu para o empobrecimento da Economia Portuguesa, pois o dinheiro era desviado de investimentos infraestruturais na metrópole. Até 1960 o país continuou relativamente pobre, o que estimulou a emigração, após a Segunda Guerra Mundial, para países em rápido crescimento e de escassa mão-de-obra da Europa Ocidental, como França ou Alemanha. Para muitos o Governo português estava envelhecido, sem resposta aparente para um mundo em grande mudança cultural e intelectual.

A guerra colonial gerou conflitos entre a sociedade civil e militar, tudo isto ao mesmo tempo que o modelo económico imposto pelo regime fazia com que o país permanecesse pobre, gerando uma forte emigração. Em Fevereiro de 1974, Marcelo Caetano é forçado pela velha guarda do regime a destituir o general António Spínola e os seus apoiantes, quando tentava modificar o curso da política colonial portuguesa, que se revelava demasiado dispendiosa para o país. Nesse momento, em que são reveladas as divisões existentes no seio da elite do regime, o MFA, movimento secreto e clandestino, decide levar adiante uma revolução. O movimento nasce secretamente em 1973 da conspiração de alguns oficiais do exército, primeiramente preocupados com questões profissionais.




Preparação do 25 de Abril


A primeira reunião clandestina de capitães foi realizada em Bissau, em 21 de Agosto de 1973. Uma nova reunião, em 9 de Setembro de 1973 no Monte Sobral (Alcáçovas) dá origem ao Movimento das Forças Armadas. No dia 5 de Março de 1974 é aprovado o primeiro documento do movimento: "Os Militares, as Forças Armadas e a Nação". Este documento é posto a circular clandestinamente. No dia 14 de Março o governo demite os generais Spínola e Costa Gomes dos cargos de Vice-Chefe e Chefe de Estado-Maior General das Forças Armadas, alegadamente, por estes se terem recusado a participar numa cerimónia de apoio ao regime. No entanto, a verdadeira causa da expulsão dos dois Generais foi o facto do primeiro ter escrito, com a cobertura do segundo, um livro, "Portugal e o Futuro", no qual, pela primeira vez uma alta patente advogava a necessidade de uma solução política para as revoltas separatistas nas colónias e não uma solução militar. No dia 24 de Março a última reunião clandestina decide o derrube do regime pela força. - Continua-

(elementos retirados da Wikipédia)

22 Julho 2007

25 de Abril - Não deixem Abril Morrer!

Ary dos Santos - 1977 - Muitos Homens na Prisão

25 de Abril

Portugal, Lisboa. Revolução de 25 de Abril de 1974

Grândola Vila Morena

Paulo de Carvalho - E depois do adeus

Vitorino

Zeca Afonso - 20 Anos Depois

Pedro Barroso

21 Julho 2007

Ermelinda Duarte - Uma Gaivota Voava...

José Mário Branco

Manuel Freire - Pedra Filosofal

Carlos Paredes - Verdes Anos

Zeca Afonso - Venham mais cinco

Adriano Correia de Oliveira - Trova do vento que passa


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